A orgia que destruiu um império em SP – 1763 – São Paulo, 1763.

A cidade ainda era apenas uma sombra acanhada do que viria a ser. Ruas de terra batida, casarões de taipa, erguidos com suor e ambição. O ar carregado de umidade da serra do mar, misturado ao cheiro de cana queimada que vinha das fazendas do interior. Ali onde hoje se ergue uma metrópole pulsante, existia um outro tipo de império, um império de terras, de ouro de contrabando, de cana de açúcar e de segredos enterrados profundamente na lama das estradas coloniais.

E no centro desse império estava ela, dona Leonor de Albuque Souza, a mulher mais rica de São Paulo, a matriarca, assim a cujo nome era pronunciado com reverência nas igrejas e com medo nos corredores do poder. Mas os impérios, por mais sólidos que pareçam, são construídos sobre alicerces frágeis. E o de dona Leonor estava prestes a desmoronar de uma forma que ninguém poderia prever.

Tudo começou numa noite abafada de março. A lua cheia iluminava o casarão dos Albuquerque Souza, como se Deus mesmo quisesse revelar o que acontecia naquelas paredes de taipa branca. Dona Leonor estava em seu escritório particular. Um cômodo que poucos tinham permissão para entrar. Aos 42 anos, ela mantinha a postura rígida de quem nasceu para mandar.

Viúva há 5 anos do Capitumor Inácio de Souza, ela assumiu os negócios da família com mão de ferro. Três. Fazendas de cana, Duas e Café, Minas de Ouro clandestinas no Vale do Ribeira, contratos exclusivos com a coroa para fornecimento de víveres. As expedições que partiam rumo ao sertão. Dona Leonor não era apenas rica, ela ela era poderosa e poder no Brasil colonial valia mais que qualquer título de nobreza.

Naquela noite ela recebia uma visita. Seu primo, o ouvidor geral Gaspar Rodrigues de Macedo. Um homem de 48 anos, barriga proeminente sob o gibão de veludo negro. Olhos pequenos e calculistas. Gaspar era o braço da justiça real em São Paulo, o representante direto da coroa. E dona Leonor sabia exatamente como usá-lo. Prima, disse Gaspar, sentando-se pesadamente na cadeira de jacarandá.

Os tempos estão mudando. Lisboa está de olho nas capitanias. Querem apertar o controle, querem mais impostos e, principalmente, querem acabar com o contrabando de ouro. Seus amigos na Câmara estão nervosos, muito nervosos. Dona Leonor não se moveu. Seus dedos adornados com anéis de ouro e esmeraldas tamborilavam suavemente sobre a mesa de madeira escura.

E o que propõe, primo? Que eu simplesmente entregue metade do que produzo para um rei que nunca pisou nestas terras? A resposta de Gaspar foi direta. Preciso de fundos. 10.000 Crusaders. M. Os novos fiscais da coroa chegarão em dois meses. Homens incorruptíveis, dizem, mas preciso garantir certas proteções. O silêncio foi pesado como chumbo. 10.000 cruzados era uma fortuna. Dona Leonor estudou o primo com atenção. Viu o suor em sua testa, apesar do frio da noite. Viu o tremor quase imperceptível em suas mãos. Está em dívida de jogo, não está? Ela disse. E não era uma pergunta. Aquelas noites na casa do tenente Brandão, as cartas, os dados, você perdeu tudo. O rosto de Gaspar ficou vermelho.

Isso não é da sua conta. Você acha que sou tola? Acha que não tenho olhos em cada canto desta cidade miserável? Você deve aos homens errados, Gaspar. Gaspar se levantou cambaleante. Cuidado com suas palavras, prima. Lembre-se de quem eu sou. E ela gritou. E você lembre-se de quem lhe manteve no poder todos estes anos? Sem meu ouro, você seria nada.

O que aconteceu a seguir mudou tudo. Gaspar, embriagado pela raiva e pelo vinho, cometeu o erro fatal. Você é quem me deve, Leonor. Ou esqueceu do que fiz por você quando seu marido morreu. Aquelas circunstâncias tão convenientes? O laudo do médico. Você realmente acha que ninguém desconfiou? Um homem saudável que morre de repente após um jantar? E eu que fiz com que nenhuma investigação fosse aberta.

O sangue de dona Leonor gelou. Ali estava o segredo que ela guardava 5 anos. A verdade que apenas três pessoas no mundo conheciam. Inácio de Souza não havia morrido de causas naturais. Ela o havia envenenado, arsênico misturado ao vinho durante semanas, porque Inácio estava louco, perdendo a cabeça, tomando decisões desastrosas, ameaçando destruir tudo.

E porque ele planejava mudar o testamento, deixar tudo pra igreja, dona Leonor não podia permitir. Então ela agiu e Gaspar aparentemente sempre soube. “Saia da minha casa”, disse ela com uma voz tão fria que parecia vir do próprio inverno. Agora Gaspar virou-se e saiu. Eu quero o meu ouro, Leonor.

Eu de uma forma ou de outra, dona Leonor ficou parada, as mãos trêmulas apoiadas na mesa. Pela primeira vez em anos, ela sentiu medo, medo real, porque ela sabia o que viria a seguir. Gaspar não era apenas corrupto, ele era desesperado. E homens desesperados são capazes de qualquer coisa. Duas semanas depois, na manhã de uma quinta-feira ensolarada, um homem chamado Jacinto Pereira da Silva chegou a São Paulo.

 

Denilson Costa

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