A Voz Silenciada de Tereza – Março Não É Apenas Flor

Março chega, e com ele vêm as flores, os descontos “para elas”, as mensagens prontas sobre força e delicadeza. Mas enquanto vitrines celebram, o Brasil enterra mulheres. Essa é a verdade que não cabe nos cartões comemorativos.
Falamos das Helenas das novelas, de suas paixões intensas e finais felizes. Mas fora da ficção, muitas mulheres não chegam ao último capítulo. São interrompidas pela violência que insiste em sobreviver em pleno século XXI. Entre a fantasia e a realidade, há um abismo — e nele estão os nomes que raramente viram homenagem.
Um desses nomes é o de Tereza de Benguela. No século XVIII, ela liderou o Quilombo do Quariterê com estratégia, inteligência e coragem. Governou, organizou, resistiu. Foi rainha não por herança, mas por enfrentamento. Lutou contra um sistema que negava humanidade ao seu povo. E, ainda assim, sua memória foi empurrada para as margens da história.
O que mudou de lá para cá?
Hoje, mulheres continuam tendo sua humanidade questionada — não mais pelas correntes da escravidão, mas pelas correntes do machismo estrutural. O feminicídio é a face mais brutal dessa lógica: mulheres assassinadas por serem mulheres. Mortas por parceiros, ex-companheiros, conhecidos. Mortas dentro de casa. Mortas por não aceitarem controle, ciúme, posse.
Isso não é acaso. Não é “crime passional”. É resultado de uma cultura que ensina que o homem pode dominar e que a mulher deve suportar. Quando ela rompe o ciclo, muitas vezes paga com a vida.
Celebrar o Mês da Mulher sem falar de feminicídio é maquiar a realidade. Não precisamos apenas de discursos sobre empoderamento; precisamos de compromisso com a vida. Não basta dizer que mulheres são fortes. Elas não deveriam precisar ser fortes para sobreviver.
Tereza resistiu a um sistema armado. Hoje, milhares resistem ao medo cotidiano. A diferença é que, agora, o inimigo muitas vezes dorme ao lado. E o silêncio social continua sendo cúmplice.
Março não pode ser só homenagem. Precisa ser denúncia. Precisa ser memória e ação. Precisa ser o mês em que olhamos para os números, para os rostos, para as histórias interrompidas — e decidimos que nenhuma mulher deve morrer por querer viver livre.
Porque flor nenhuma cobre o peso de um caixão.
E homenagem nenhuma substitui justiça.
Denilson Costa
