“América para os americanos, menos o Zé Carioca”

Doutrina Monroe, estabelecida em 2 de dezembro de 1823 pelo presidente James Monroe, foi a política externa dos Estados Unidos que sintetiza a ideia de “América para os americanos”. O poder e o impacto da guerra atravessam o tempo como uma sombra persistente, marcando gerações e territórios.
O cheiro da guerra na América — perceptível nas tensões diplomáticas, nas ameaças veladas e nos bombardeios que ecoam na Venezuela — desperta um alerta inquietante. Ele nos obriga a perguntar até onde o poder ir para sustentar interesses estratégicos, políticos e econômicos, muitas vezes distantes das necessidades reais dos povos que sofrem suas consequências.
No final do século XIX, Solange Lopes lançou um olhar sensível e crítico sobre os horrores e as consequências da Guerra do Paraguai. Seu trabalho revelou não apenas a brutalidade de um dos conflitos mais devastadores da América do Sul, mas também as marcas profundas deixadas na sociedade, na economia e na memória coletiva dos países envolvidos. A guerra, ali, não se resumiu a batalhas e tratados: ela desestruturou famílias, apagou histórias individuais e moldou fronteiras à custa de vidas silenciadas. Assim como Lopes fez ao revisitar o passado, é essencial que olhemos para os conflitos contemporâneos com a mesma lucidez.
As guerras atuais, embora envoltas em discursos de segurança, soberania ou progresso, continuam a atingir de forma direta a população civil. São pessoas comuns que carregam o peso das decisões tomadas em gabinetes distantes, enquanto o cotidiano se fragmenta entre o medo, a incerteza e a perda. Essa intersecção entre passado e presente revela um padrão recorrente na história: a luta pelo poder quase sempre se constrói sobre o sofrimento humano. Mudam-se os cenários, os discursos e as tecnologias, mas a lógica permanece a mesma.
A repetição desses ciclos de violência nos obriga a questionar a legitimidade das ações empreendidas em nome do controle e da dominação, bem como o custo moral e social que elas impõem. O cheiro da guerra, portanto, não é apenas uma metáfora poética. Ele se manifesta no ar pesado das cidades ameaçadas, nas notícias que se repetem, nos silêncios que escondem o medo coletivo. É um sinal de alerta que atravessa décadas, lembrando-nos de que a história não está tão distante quanto gostaríamos de acreditar.
Diante disso, o grande desafio da humanidade é romper esse ciclo. Pensar alternativas ao conflito exige coragem política, empatia e disposição para o diálogo. Construir um futuro em que a diplomacia prevaleça sobre as armas não é simples, mas é necessário. Somente assim as lições do passado poderão cumprir seu verdadeiro papel: não o de serem lembradas apenas como tragédias, mas como advertências para que o cheiro da guerra, um dia, deixe de nos assombrar.
Denilson Costa
