Brasil tem 391 etnias e 295 línguas indígenas, revela Censo 2022

O Censo Demográfico 2022 identificou 391 etnias, povos ou grupos indígenas no Brasil, além de 295 línguas indígenas faladas no país. Os números representam aumentos de 28% e 8%, respectivamente, em relação ao Censo de 2010 — quando foram registradas 305 etnias e 274 línguas.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento reflete uma maior autoidentificação dos povos indígenas com suas origens, resultado direto de políticas públicas de valorização cultural e proteção étnica.

“Nos últimos anos, fruto também do próprio Censo, o pertencimento étnico passou a ser valorizado”, afirmou Marta Antunes, gerente de Povos e Comunidades Tradicionais do IBGE.

População indígena cresce quase 90% desde 2010

O Censo contabilizou 1.694.836 pessoas indígenas, das quais 74,51% declararam etnia. As mais populosas são Tikúna (74.061 pessoas), Kokama (64.327) e Makuxí (53.446).

Em 2010, o país tinha 896.917 indígenas — o que representa um crescimento de quase 90% em 12 anos.

O número de etnias registradas dentro de Terras Indígenas passou de 250 para 335, e fora das Terras Indígenas, de 300 para 373. Isso reflete tanto processos migratórios e urbanização quanto a reafirmação identitária de grupos que antes evitavam se declarar indígenas por preconceito.

Tikúna, Kokama e Makuxí lideram entre as etnias mais populosas

A etnia Tikúna lidera em número de pessoas, seguida de Kokama e Makuxí. O caso dos Kokama é emblemático: o grupo teve expressivo crescimento entre 2010 e 2022, impulsionado por melhorias metodológicas do Censo e por um processo de reafirmação cultural.

“Os Kokama têm fortalecido suas formas de organização comunitária e reivindicação por direitos. O retrato desse grupo foi aperfeiçoado”, explicou Fernando Damasco, gerente de Territórios Tradicionais do IBGE.

Dupla etnia e presença urbana crescem

Pela primeira vez, o Censo permitiu que indígenas declarassem duplo pertencimento étnico — 1,43% da população se identificou com duas etnias, geralmente a do pai e a da mãe.

O levantamento também mostra um crescimento expressivo da população indígena urbana:

  • 2010: 324.834 pessoas;
  • 2022: 844.760 pessoas.

O aumento é atribuído à mobilidade estudantil, políticas de inclusão e migrações recentes, como a de indígenas venezuelanos.

São Paulo lidera em diversidade de etnias

O estado de São Paulo é o mais diverso etnicamente, com 271 etnias identificadas. Em seguida aparecem Amazonas (259) e Bahia (233).

Entre as capitais, São Paulo (194 etnias), Manaus (186), Rio de Janeiro (176) e Salvador (142) lideram. Fora das capitais, destacam-se Campinas (SP), Santarém (PA) e Iranduba (AM).

Línguas indígenas: 295 faladas e jovens garantem continuidade

O Brasil conta hoje com 295 línguas indígenas, faladas por 474.856 pessoas com dois anos ou mais.
As línguas mais faladas são:

  • Tikúna (51.978 falantes)
  • Guarani Kaiowá (38.658)
  • Guajajara (29.212)
  • Kaingang (27.482)

Embora o número absoluto de falantes tenha aumentado, a proporção caiu de 37,35% (2010) para 28,51% (2022). Dentro das Terras Indígenas, porém, o percentual subiu de 57,35% para 63,22%.

“O avanço do português está ligado à necessidade de estudo e trabalho, mas há sinais de revitalização linguística entre os jovens”, destacou Damasco.

O Censo também permitiu registrar até três línguas por pessoa, revelando regiões multilíngues, como o Alto Rio Negro, o Norte do Pará e o Parque do Xingu.

Educação e alfabetização

Entre os 308 mil indígenas falantes de línguas indígenas com 15 anos ou mais, 78,55% são alfabetizados — taxa menor que a média da população indígena geral (84,95%).

O analfabetismo caiu de 32,13% (2010) para 21,45% (2022), mas ainda é alto entre quem fala apenas línguas indígenas (31,85%).

Saneamento básico ainda é desafio

O levantamento também revela deficiências em acesso à água, esgoto e coleta de lixo.
Entre os Tikúna, 74% vivem sem acesso à água encanada, e 92% utilizam formas rudimentares de esgotamento. Situação semelhante é observada entre Kokama, Guarani-Kaiowá, Makuxí e Guajajara.

“Essas desigualdades mostram que políticas públicas precisam considerar as especificidades culturais e territoriais dos povos indígenas”, apontou o IBGE.

Censo mais detalhado da história

O estudo faz parte da divulgação “Censo Demográfico 2022: Etnias e Línguas Indígenas — Principais características sociodemográficas”, com informações sobre sexo, idade, alfabetização, registro civil e saneamento, desagregadas por etnias, regiões, Terras Indígenas e municípios.

O Censo foi realizado em todos os 5.570 municípios do país e consolida o retrato mais abrangente da diversidade étnica e linguística brasileira.

Com informações de Agência Gov.

Wagner Sales – editor de conteúdo

Foto: Mário Vivela / Funai

WhatsApp