Carta Hum

Por: Jorge Eduardo Magalhães
Meu querido,
Não te conheço pessoalmente, mas você vive em meu coração. Li nos jornais como você assassinou aquelas mulheres, todas da mesma forma, estrangulando-as, mas que poético. Imagino pescoços arroxeados daquelas privilegiadas que a imprensa cruel denominou de “suas vítimas”.
A imprensa também inventou-lhe a perífrase de “O maníaco dos pescoços alvos”, devido ao fato de você ter predileção por mulheres bem claras e de cabelos negros. Que injustiça! Você proporcionou a todas aquelas mulheres e infelizes a maior prova de amor que um homem pode nos dar: um desfecho tão idílico.
Tenho a sensibilidade para perceber que, durante tão bela ação foi, na verdade, um ato de amor, um ato de um homem apaixonado. O que muitos psiquiatras e outros especialistas chamam de um sentimento mórbido, interpreto como a iniciativa mais linda que você pôde ter feito. O que chamam de “suas vítimas”, para mim, foram “suas contempladas”, que tiveram o privilégio de fazer suas passagens, através de suas mãos lindas e fortes.
Meu tipo físico é o mesmo de suas “contempladas”: tenho todos os recortes de jornais sobre você, meu “maníaco dos pescoços alvos”. Enquanto a polícia estava à sua procura, imaginava como você era e suspirava só em pensar como seria o nosso encontro e imaginava-me contemplada pelo seu tórrido ato de amor.
Quando você foi pego, meu coração bateu forte ao ver a sua foto no jornal. Que homem lindo! Você foi descoberto antes de cumprir sua missão final, dar-me a sua prova de amor. A polícia o prendeu antes do nosso encontro, nossa primeira e última vez, a qual você me proporcionaria o maior êxtase da minha vida, ou melhor, do meu processo de passagem.
Agora está em uma imunda cela, isolado de todos e de tudo, escrevo-lhe esta carta, que espero que chegue a suas mãos. Quero encontrar uma forma de poder visitá-lo. Quem sabe ajudá-lo em uma fuga? E quando estivermos a sós em um quarto fétido e barato, você apertará o meu pescoço, meus olhos se revirarão, meus membros se debaterão, até eu ficar totalmente inerte, com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e o pescoço com hematomas arroxeados. Enquanto isso não acontece, vou escrevendo-lhe. Esta é a primeira de várias cartas que irei enviar.
Ps: Te amo!
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