“Comando Vermelho manda no Rio: só 15 cidades escapam do crime”

Um relatório de inteligência da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), obtido pela imprensa em novembro de 2025, traça um retrato alarmante da expansão do crime organizado no estado. O documento aponta que o Comando Vermelho (CV) domina 70 dos 92 municípios fluminenses, inclusive a capital, e que apenas 15 cidades seguem sem o domínio consolidado de facções criminosas — um número que ilustra a fragilidade do Estado diante da territorialização das organizações armadas.

Na cidade do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho mantém o controle da maioria das comunidades e favelas, especialmente nas zonas Norte e Oeste. Segundo o relatório, o grupo atua em pelo menos 80% das áreas sob domínio armado na capital, rivalizando apenas com o Terceiro Comando Puro (TCP) em regiões isoladas, como a Vila Kennedy e partes da Penha.

Em bairros como Complexo do Alemão, Maré, Penha, Acari e Cidade de Deus, o domínio do CV é antigo e consolidado, sustentado por redes de tráfico, armas e milicianos cooptados. O relatório indica que a facção atua sem concorrência direta em boa parte das comunidades — reflexo da capacidade de organização, da presença armada e do poder econômico do grupo.

“A capital fluminense é o coração do domínio do Comando Vermelho. Dela partem as ordens, o financiamento e a expansão para o interior”, afirma o coronel Uirá do Nascimento Ferreira, da Subsecretaria de Inteligência da PM.

O mapa da dominação no estado

O levantamento da PM mapeou 1.648 áreas com presença estruturada de grupos criminosos em todo o território fluminense.
A distribuição é a seguinte:

  • Comando Vermelho (CV) – 1.036 locais (62,8%)
  • Terceiro Comando Puro (TCP) – 340 (20,6%)
  • Milícia – 229 (13,9%)
  • Amigos dos Amigos (ADA) – 43 (2,6%)

Em 36 municípios, o CV atua sozinho, sem concorrência de outras facções.
Já nas regiões metropolitanas e da Baixada Fluminense, a disputa se acirra, com áreas divididas entre tráfico e milícias, principalmente em bairros de Nova Iguaçu, São Gonçalo, Duque de Caxias e Itaguaí.

As 15 cidades fora do controle armado

As únicas cidades do estado que, até o momento, não têm domínio consolidado de nenhuma facção são:

  1. São José do Vale do Rio Preto
  2. Casimiro de Abreu
  3. Silva Jardim
  4. Mendes
  5. Pinheiral
  6. Rio das Flores
  7. Sapucaia
  8. Carapebus
  9. Cardoso Moreira
  10. Quissamã
  11. Cambuci
  12. Italva
  13. Carmo
  14. Sumidouro
  15. São Sebastião do Alto

Esses municípios se concentram, em sua maioria, nas Regiões Serrana, Norte e Noroeste Fluminense — áreas menos densas e mais distantes das rotas de tráfico e comércio ilegal.

A ausência de domínio armado, segundo especialistas, não representa tranquilidade total.
Muitos desses municípios convivem com pequenas redes de tráfico, furtos e delitos locais, além do risco constante de expansão de facções vizinhas.

“Estar fora do mapa do domínio não significa estar fora da influência criminal. São áreas vulneráveis, monitoradas pelas facções em busca de rotas e novos territórios”, explica o sociólogo Eduardo Ribeiro, especialista em violência urbana.

Em cidades como Casimiro de Abreu e Cardoso Moreira, o Ministério Público já identificou investigações ligadas ao Comando Vermelho, indicando tentativas de entrada de faccionados — o que reforça a necessidade de vigilância constante.

O avanço do crime pelo interior fluminense é consequência direta da pressão policial nas grandes cidades. À medida que o policiamento se intensifica na capital e na Baixada, as facções buscam refúgio e novas fontes de renda em cidades menores.
Segundo dados da PM, o CV e o TCP têm ampliado rotas para o transporte de drogas e armas, aproveitando a falta de estrutura das polícias locais e a proximidade com rodovias federais e estaduais.

Falta de transparência e série histórica ausente

Embora o relatório da PM traga dados detalhados de 2025, ele não apresenta uma linha do tempo pública. Não há registros abertos que indiquem desde quando cada município está sem domínio consolidado — nem se algum deles já foi controlado por facções e reconquistado.

O documento é sigiloso, e as informações repassadas à imprensa representam apenas recortes de um monitoramento contínuo e restrito a órgãos de segurança.

A presença de facções e milícias em 77 dos 92 municípios fluminenses mostra o tamanho do desafio para as forças de segurança. Segundo o coronel Uirá Ferreira, o objetivo do mapeamento é orientar ações de inteligência e retomada territorial.

“Nosso foco é identificar, com precisão, onde o Estado perdeu controle e onde ainda há espaço para impedir o avanço do crime”, afirmou o oficial.

Mas, enquanto o Comando Vermelho consolida seu poder e milícias se expandem pela Baixada e Zona Oeste, o fato de apenas 15 cidades resistirem ao domínio armado é um alerta grave sobre o ritmo da deterioração da segurança pública no estado.

Com informações de Diogo Gonzaga (estagiário)

Wagner Sales – editor de conteúdo

Foto: Redes sociais

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