Desfiles além da Sapucaí: escolas da Série Prata brilham na Intendente Magalhães

Por: Luana Luna

Enquanto os holofotes do mundo se voltam para as curvas da Sapucaí, o coração pulsante do Carnaval carioca encontrou seu ritmo mais autêntico em um asfalto bem conhecido do subúrbio: a Estrada Intendente Magalhães. Nos dias 15 e 16 de fevereiro, a Série Prata provou que o luxo mora na criatividade e que a paixão da comunidade não precisa de ingressos caros para transbordar. Foram 29 escolas que transformaram a via em um corredor de resistência, cultura e, acima de tudo, o mais puro “samba raiz”.

 

Infraestrutura: Hidratação e Limpeza em Nota Dez

Para quem acompanhou de perto, o clima era de uma grande celebração familiar. A organização foi amplamente elogiada pelo público, que destacou a sensação de segurança. Um dos pontos altos da logística foi o combate ao calor intenso e seco que castigou a Zona Norte.

A parceria com a Cedae garantiu que ninguém ficasse de garganta seca: além dos pontos fixos, “aguadeiros” percorreram as arquibancadas com carrinhos de água gelada servida em copos biodegradáveis. O cuidado foi essencial, já que, segundo o Corpo de Bombeiros, a principal ocorrência registrada foi o desfalecimento de foliões. O calor excessivo, somado ao peso das fantasias e à baixa hidratação, vitimou alguns componentes, reforçando a recomendação constante dos militares para que o folião intercale o samba com muita água fresca.

Na pista, o trabalho da Comlurb foi cirúrgico. Logo atrás de cada escola, a equipe de limpeza entrava em ação, deixando o asfalto impecável para a próxima agremiação. Um detalhe humano chamou a atenção: os garis contaram com um staff de descanso que incluía até massagem, reconhecendo o esforço físico desses profissionais.

 

O Povo Escolhe sua Favorita

Apesar da satisfação geral, o público — composto majoritariamente por veteranos da Intendente — deixou uma ressalva: a quantidade de arquibancadas ainda é insuficiente para a multidão. “É o povão, é a proximidade que o Sambódromo às vezes perde”, comentou um torcedor. E foi justamente essa proximidade que coroou a Renascer de Jacarepaguá como a grande favorita das galerias.

Com o enredo “A Divina Comédia Brasileira”, a escola de Jacarepaguá tocou na ferida social. Suas baianas, com saias vermelhas transparentes e iluminadas, foram um espetáculo visual. A agremiação não teve medo de protestar, trazendo alas com cartazes pedindo “mais hospitais e menos filas”, ecoando o sentimento de que “vidas não esperam”.

 

Destaques do Primeiro Dia (15/02)

A Mocidade Unida do Santa Marta abriu os trabalhos com o enredo “Samba É Minha Cachaça”. A escola de Botafogo encerrou sua trilogia sobre a celebração da vida com um desfile correto, embora sem empolgar totalmente o público. O clima esquentou com o Arrastão de Cascadura, que trouxe o Nordeste para a pista, seguido pelo Tubarão de Mesquita, que homenageou a antropóloga Berta Ribeiro com uma bateria de execução impecável e paradinhas ovacionadas.

A União do Parque Curicica apostou na plasticidade para homenagear o artista Arlindo Oliveira, destacando-se pela coreografia da comissão de frente. Já a Independente da Praça da Bandeira trouxe o “Grande Sertão Negro”, narrando a chegada dos negros ao Nordeste. Um momento tenso ocorreu com a Chatuba de Mesquita: apesar da execução impecável do casal de mestre-sala e porta-bandeira mirins, duas idosas da velha guarda precisaram ser carregadas para que a escola não estourasse o tempo regulamentar.

 

Destaques do Segundo Dia (16/02)

O segundo dia manteve o nível elevado com a Vizinha Faladeira e a Unidos de Lucas, esta última tratando das lutas contra a opressão. A Lins Imperial também brilhou com uma coreografia de comissão de frente muito aplaudida pelos jurados.

Houve, porém, dramas com o cronômetro. O Siri de Ramos estourou o tempo, fechando com mais de 43 minutos de desfile. O Engenho da Rainha quase seguiu o mesmo caminho, precisando correr com seu último carro após ter seu casal de mestre-sala e porta-bandeira ovacionado. A Acadêmicos de Santa Cruz desfilou com o samba na ponta da língua e uma animação contagiante, plateia super empolgada. Nem mesmo o salto quebrado da bota de uma passista — que saiu sem lesões — tirou o brilho da escola, que foi ovacionada até o final.

 

O Amanhecer no Asfalto

 

Quando o dia começou a clarear, a Leão de Nova Iguaçu entrou na avenida. O visual da escola sob a luz matinal foi marcante, apresentando um casal inédito à frente da bateria: um rei e uma rainha.

O encerramento oficial coube à Império da Uva, que cruzou a linha de chegada às 6h40 da manhã com o dia totalmente claro. Mesmo após duas noites intensas, o público permaneceu fiel, provando que a Série Prata é a alma do Carnaval do Rio.

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