EU POSSO IR JUNTO?

Um dia desses, no prédio onde moro, uma senhora entrava junto no corredor para os elevadores. Apertei o botão e esperamos. Abri a porta e segurei para que ela entrasse. Olhei para frente e ela estava parada sem parecer que ia entrar. Eu disse “vamos?”. E ela perguntou de volta: “eu posso ir junto?”. Aí me quebrou… e os próximos dois minutos que o leitor me cederá, passaram em milésimos de segundos até o segundo andar.
Nesse condomínio – que não passa de classe média, ainda que tanta gente que more lá se considere magnata – há dois elevadores como de costume em prédios antigos: um dito social e outro de serviço. Li em algum lugar que o de serviço serve às mudanças, entregas, transporte de compras, animais de estimação e “empregados e prestadores de serviço” que, portanto, não devem utilizar o tal elevador social. Então, ou a senhora usaria o serviço ou subiria pelas escadas, ainda que sejam apenas quatro pavimentos. Porém, os próprios moradores fazem o contrário e usam o elevador social para transportar tudo o que não é permitido, inclusive eu. Então, por que uma pessoa normal como qualquer outra – e trabalhadora honesta como poucas – não poderia usá-lo?
Se quase ninguém respeita a norma destinada aos animais, por que fazer valer para outra pessoa? Aliás, “por que?” não é a pergunta correta, mas sim “para quê?”. Para quê humilhar o próximo? Para se sentir melhor e, silenciosamente, dizê-la inferior? Justo eu, que também sou empregado de outra pessoa? Eu que também tenho uma carteira de trabalho parecida com a dessa senhora ou um contrato de prestação de serviços? O elevador social é exclusivo para que eu me considere melhor que alguém? Melhor ou menos pior? O verdadeiro distanciamento social é querer separar na marra quem é tão ser humano quanto qualquer outro, com muito ou pouco dinheiro, morando na periferia ou no melhor bairro da cidade.
Vamos acordar para a vida verdadeira, pois status não paga despesa e cada um conhece as próprias verdades. Se é que são verdades. A desculpa para ostentar sem trabalho árduo e honesto não esconde o caráter. Quem está ao nosso redor sempre nos servirá de exemplo, bom ou ruim.
Nas palavras de Joanna de Ângelis, perfeitamente interpretadas pelo saudoso amigo Divaldo Pereira Franco, “a vida é grande cobradora e exímia retribuidora; o que faças aos outros sempre retornará a ti”.
Então, quando a pergunta for “eu posso ir junto?”, a resposta correta sempre será: e por que não?
Igor Menezes Cordovil é Gestor de Marketing & Inteligência de Mercado do Grupo FAMETRO, Especialista em Política e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), e MBA em Marketing, Consumo e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS).
