Frederico vive: Capítulo 70 – Um sentimento de vazio

Por: Jorge Eduardo Magalhães
Fazia quase uma semana que mandara Luiza embora. Sentada no sofá da sala, com um copo de uísque na mão, olhou ao redor de seu apartamento. Tudo parecia mais silencioso. Um enorme sentimento de vazio maculava sua alma. Uma imensa angústia, a solidão batia à sua porta.
Entre um gole e outro, refletia sobre sua vida, dando-se conta de que sempre fora uma pessoa solitária, desde a infância; nem o casamento com Valentino sanara o seu intenso sentimento de solidão; entretanto, naquele momento, tal amargura se fortalecia ainda mais.
Jogou o copo de uísque longe, que se estilhaçou na parede. Levantou-se e remexeu em suas telas que seriam da última exposição, escondidas em um pequeno cômodo do apartamento. Sentiu vergonha de si mesma por seus atos bizarros para pintar as telas. Como havia se submetido àquilo?
Abriu o armário e pegou a garrafa com o feto no formol, a qual denominava como “Frederico”. Sentiu um imenso ódio daquele natimorto.
– A culpa é tua! – berrava Natália, completamente ensandecida. – Se você tivesse nascido vivo, não teria matado meu marido, nem as outras pessoas que você determinou, seu desgraçado!
Teve o impulso de dar à garrafa em que “Frederico” habitava o mesmo destino do copo de uísque. Chegou a ensaiar arremessá-la na parede, mas logo se arrependeu, abraçando o vidro.
– Me perdoe, meu filhinho! Mamãe está muito nervosa! Fale comigo! Por favor! Não me faça sofrer!
Por alguns instantes, começou a acariciar o vidro e olhar para o natimorto com ternura, na esperança de que reatassem os antigos laços entre mãe e filho. Frederico não respondeu. Natália, abraçada à garrafa com formol, soluçava, agachada em um canto do quarto, ao lado do armário.
– Não me abandone, meu filho! Mamãe te ama muito!
Em sua insanidade, percebendo que não teria reposta, levantou-se e guardou “Frederico” no mesmo local, no fundo do armário.
– Um dia você irá me entender e me perdoar.
Novamente, olhou as paredes do apartamento e a enorme sensação de vazio ficou ainda mais forte. Pensou em dar fim à própria vida. Jogar-se pela janela, como havia feito com Valentino. Ingerir cianureto? Não. Não se mataria, pelo menos não naquele momento. Decidiu ir atrás de Luiza e chamá-la de volta, não interessava se ela só queria o seu dinheiro e explorá-la.
NÃO PERCAM O CAPÍTULO DE AMANHÃ.
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