JEZEBEL, A MUSA DO SOTURNO: Capítulo 26 – Continuação do depoimento


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Por: Jorge Eduardo Magalhães
Taís, após uma breve interrupção para os medicamentos, retomou o seu depoimento:
– No dia e hora marcados, encontrei Brenda em um café da Rua Senador Dantas, e seguimos até a estação do bonde. Fiquei fascinada observando a fachada dos prédios em Santa Teresa. Durante o trajeto eu e Brenda não trocamos nenhuma palavra. Acho que ela percebeu minha tensão.
A casa não ficava no caminho do bonde, como vocês viram. Andamos poucos metros e, quando me deparei com a fachada sombria do antigo casarão, pensei em desistir. Percebendo meu temor, Brenda tentou me confortar.
– Relaxa! No início é assim mesmo, o aspecto do casarão intimida, mas com o tempo, você vai amar.
Entramos no casarão, onde algumas pessoas, homens e mulheres, a maioria jovens, observavam-me com um olhar gélido e penetrante. Senti a forte energia do local. Fui apresentada àquelas pessoas que me receberam e saudaram com uma simpatia forçada, tinha a impressão de que não tinham nenhum sentimento. As estátuas pela casa e os quadros na parede eram tenebrosos.
O reverendo estava em uma sala, uma espécie de escritório me aguardando. Fomos apresentados por Brenda, que se retirou, deixando-nos a sós. O Reverendo me olhava fixamente. Tinha o mesmo olhar dos outros integrantes da seita ou ordem, como vocês acharem melhor.
– Mas você não pensou em desistir? – perguntou Eunice.
– Até pensei e talvez não me prendessem, mas a retórica do Reverendo, em relação a realizar meus desejos, através da magia eram muito convincentes. Enfim. Convenceu-me e teve a minha iniciação. Foi um ritual macabro, senti pavor, mas aguentei firme. Só tinha tido relações sexuais com um namorado e percebei que o Reverendo, um homem com quarenta e poucos anos, me possuiria. Tive relações com aquele homem grotesco. Ele dizia que fazia parte da magia sexual. Depois tomei uma beberagem, que chamavam de “mel”, que fiquei fora de mim, em uma vida paralela.
– Um alucinógeno? – perguntei.
– Sim, se por exemplo, você sonhasse em fazer uma viagem para algum lugar e mentalizasse quando tomasse, você vivia aquilo.
– Que coisa! – deixou escapar Eunice, assustada.
Taís retomou:
– É assim que prendem as pessoas à seita, viciando naquele mel.
– Você ficou viciada?
– Não tenho outra nomenclatura.
– E por que te trancaram no porão? – perguntou Eunice.
– Porque me recusei a fazer uma coisa pavorosa, em um daqueles cultos macabros, repletos de orgias e drogas.
– O quê? – perguntei
– Sacrificar um recém-nascido.
Por alguns instantes, eu e Eunice nos olhamos. Taís ficou calada durante alguns segundos, respirou fundo e continuou:
– Os membros da seita me chamaram de traidora e me trancafiaram nua naquele porão. Passavam água e comida por baixo da porta e, de vez em quando o mel para eu sonhar um pouco.
– Alguém sacrificou o recém-nascido?
– Certamente sim.
NÃO PERCAM O CAPÍTULO DE AMANHÃ.
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