JEZEBEL, A MUSA DO SOTURNO: Capítulo 39 – Depoimento da travesti Lorraine

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Por: Jorge Eduardo Magalhães

Naquela noite, pensei na hipótese de Gisele ter fugido com o pai de sua filha: embora falasse mal, percebia que, ao se referir a ele, seus olhos brilhavam. Sinceramente, não me importava com aquilo, pois, ainda que tivesse um enorme carinho por Gisele, nossa relação era simplesmente carnal e, no fundo, ela tinha consciência disso.

Naquela manhã, seria o depoimento da travesti conhecida como Lorraine, que ficou aprisionada durante meses naquele quarto escuro e quente, nos fundos da Boate Soturno. Não posso detalhar muito bem como isso se deu, nem o local; contudo, posso reproduzir, mais ou menos o que a testemunha disse em depoimento.

Lorraine se sentou. Estava visivelmente tensa. Observando a transsexual, poderia ser confundida com uma mulher biológica. Parecia constrangida e, ao mesmo tempo, aliviada. Começou o seu depoimento, falando com certa dificuldade, provavelmente, devido à emoção:

Tenho 19 anos, meu nome social é Lorraine. Sou natural de Divinópolis, em Minas Gerais. Na minha cidade, sempre fui vista como uma aberração, minha família nunca me aceitou. Embora desde pequena tenha me sentido mulher, nunca tive dinheiro para fazer a transição.

Meu maior sonho era ser artista. Pensava em ser uma atriz famosa. Todos riam quando eu falava isso. Devido à minha orientação sexual, sofri violência dos valentões da cidade e até na minha família. Meu primeiro homem foi meu tio quando eu tinha somente treze anos. Me pegou à força e me violentou. Chorei, entrei em depressão, mas no fundo gostei.

De repente, apareceu na cidade Jezebel com um grupo de três ou quatro pessoas, que chamava de sua equipe. Fiquei fascinada com a sua beleza, com seus cabelos louros, sua pela clara. Jezebel se aproximou de mim, disse estar com sua equipe de passagem por diversas cidades de Minas, à procura de novos talentos.

Jezebel disse que eu correspondia ao perfil que estava procurando e me convidou para vir com ela ao Rio de Janeiro. Prometeu me auxiliar no tão sonhado processo de transição, cedendo-me os hormônios. Fugi da cidade, na madrugada, com Jezebel e seu grupo.

Ficamos, durante algum tempo, escondidos em um hotel barato, no Centro de Belo Horizonte. Jezebel comprou roupas para mim e me doou hormônio. Começava meu processo de transição. Ela me convenceu a trabalhar na pista, nas proximidades da Rua Guaicurus, alegando que o começo da carreira era assim mesmo. Não reclamei. Afinal de contas, acreditei que meu sonho seria realizado.

Passados dois meses, viemos para o Rio de Janeiro e, assim que aqui cheguei, não saí mais do Soturno. Durante o dia, ficava confinada junto com outras meninas e, durante a noite, trabalhávamos dançando na boate e atendendo os clientes. Éramos prisioneiras daquela quadrilha.

Para amenizar nosso sofrimento, davam-nos uma espécie de mel, que nos fazia sonhar. A tal droga, nem sei se posso chamar assim, dava uma sensação de delírio. Por exemplo, eu que sonhava em ser uma artista, ao tomar a substância, vivia em um mundo paralelo, um mundo idealizado por mim.

Interrompeu seu depoimento e começou a chorar.

NÃO PERCAM O CAPÍTULO DE AMANHÃ.

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