JEZEBEL, A MUSA DO SOTURNO: Capítulo 63 – Depoimento da tia de Jocilene


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Por: Jorge Eduardo Magalhães
A tia de Jocilene, a qual o nome será ocultado aqui para preservar sua integridade, compareceu ao local e horário combinados. Era uma senhora parda, cinquenta anos presumíveis, um aspecto sofrido, o que se percebia ser uma pessoa bem humilde.
A pobre senhora se mostrava bastante tensa e abatida devido à morte da sobrinha, de uma forma tão truculenta. O local parecia constrangê-la, o que era compreensível para quem nunca havia ficado frente a frente com policiais.
– A Jocilene sempre foi muito fora da realidade, achando que um dia seria rica e famosa. Cuidei dela quando era pequena, falei para que ela estudasse, mas só pensava em grandeza. Saiu de casa, lá em Caxias, para ir morar não sei se no Centro ou na Zona Sul. Acho que ela fazia programa, não tenho certeza.
Ela nunca suportou morar na Baixada Fluminense, por isso, quando saiu de casa, quase não me visitava. Depois ela sumiu e não me deu mais notícias. Não dei muita importância, pois ela sempre fazia isso. Só que a Jocilene demorou muito para falar comigo e comecei a estranhar o seu sumiço.
Alguns meses depois, em uma madrugada, ela bateu em minha porta. Estava suja, parecia desorientada, não falava coisa com coisa. Perguntei o que estava acontecendo, mas ela estava completamente fora de si, dizendo ser perseguida, que queriam matá-la. Inicialmente, achei que estivesse envolvida com drogas. Dei-lhe o calmante e chamei o pastor da minha igreja para que fizesse uma oração.
Quando ela despertou, perguntei o que havia acontecido. Jocilene me contou que entrara em um grupo virtual, chamado Cidade das Flores. Falei para que ela não fosse, que aquilo tudo era ilusão, mas ela sempre foi desmiolada. Disse-me que, nesse lugar, ela poderia ser quem quisesse e até teria um novo nome e personalidade. Depois não me deu mais notícias.
– O que ela contou para a senhora sobre o local? – perguntou Fragoso.
– Não falou muita coisa, estava muito atordoada. Esperei que ela se recuperasse. Estava somente há alguns dias comigo. Disse somente que fugiu junto com uma outra moça, que também estava aprisionada, e que faziam trabalhos forçados, mas eu não quis insistir muito. Falou apenas de uma mulher que todos tinham que chamar de majestade. Uma mulher loura e bonita. Quando ela estava melhor, disse que ia visitar uma amiga. Não achei que fosse nada demais. Afinal, julguei que seria bom distrair a mente. Foi quando ela desapareceu e seu corpo foi encontrado. Ela foi enterrada viva mesmo, moço? Sofreu muito para morrer?
Começou a chorar. Eu e Fragoso nos olhamos e mantivemos o completo silêncio.
