Lula Pede Mudança Geopolítica e Multilateralismo em Cúpula BRICS

Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (7), após o encerramento da Cúpula dos Chefes de Estado do BRICS no Rio de Janeiro, o presidente Luís Inácio Lula da Silva destacou a necessidade de uma mudança estrutural na geopolítica internacional. “O BRICS é um novo jeito de a gente fazer o multilateralismo sobreviver no mundo. A gente não quer mais um mundo tutelado. A gente quer fortalecer o processo democrático, o processo multilateral. A gente quer a paz, o desenvolvimento e a participação social”, afirmou Lula, resumindo a visão do bloco para o cenário global.
BRICS: Um Novo Paradigma para a Governança Global
A Cúpula do BRICS, que reuniu pela primeira vez 11 membros titulares e 10 países parceiros, além de convidados como o secretário-geral da ONU, António Guterres, e a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, e a presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, reforça o papel do bloco como alternativa para uma reestruturação internacional. O BRICS, que agora inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, se fortalece para lidar com os crescentes desafios do século XXI.
Lula defendeu a urgência de uma reforma na ONU e em outras instituições internacionais, criticando o modelo de governança global baseado nos acontecimentos de 1945. “A gente não quer mais guerra fria, a gente não quer mais desrespeito à soberania, a gente não quer mais guerra”, frisou. Ele cobrou a ausência de instituições multilaterais eficazes para negociar conflitos atuais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, apontando que o Conselho de Segurança da ONU, por sua composição, está “envolvido nisso”. O presidente reivindicou uma mudança na governança mundial para incluir a participação de países africanos, do Oriente Médio e da América Latina.
Novo Modelo Financeiro e Moedas Locais no Comércio
Outro ponto inovador do BRICS, segundo Lula, é a proposta de um novo modelo para o sistema financeiro. Ele defendeu que instituições como o FMI se tornem “um banco de investimento para atender a necessidade dos países mais pobres”, em vez de levar nações à falência com modelos de austeridade. O presidente citou o Banco do BRICS (NDB) como modelo para um novo tipo de financiamento, onde a dívida possa ser convertida em investimento em setores essenciais como infraestrutura, saúde e energia.
Sobre as discussões para que as negociações entre os países do BRICS sejam feitas em moeda local, substituindo o dólar, Lula afirmou que é um “caminho natural” e irreversível. “Eu acho que o mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação comercial não precise passar pelo dólar”, exemplificou, citando o acordo Brasil-Argentina de 2004 para comércio em moedas locais. Ele destacou que essa mudança deve ser conduzida com responsabilidade pelos bancos centrais.
Democratização da Inteligência Artificial e Avanços da Cúpula
Lula também defendeu a democratização da Inteligência Artificial (IA), argumentando que a tecnologia não pode ser limitada a poucos países ou empresas. “É preciso que a gente, no BRICS, crie um sistema de discussão em que todos possam ter acesso à inteligência artificial”, declarou.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, avaliou que a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro obteve avanços significativos. “Realizamos debates frutíferos ao longo das três sessões. Tratamos da reforma da governança global, do fortalecimento do multilateralismo e da inteligência artificial, do meio ambiente e da saúde”, pontuou. Vieira destacou a adoção de uma Declaração de Líderes que cristaliza o entendimento comum sobre a reforma da governança global como um desafio urgente contra o unilateralismo, e o apoio de China e Rússia ao maior protagonismo de Brasil e Índia no Conselho de Segurança da ONU.
Com informações de agência Gov
Wagner Sales – editor de conteúdo
Foto: Ricardo Stuckert / PR
