Missa de sétimo dia

Por: Jorge Eduardo Magalhães
Hoje foi a missa de sétimo dia de minha mãe. Durante a cerimônia, enquanto o padre falava, refleti muito sobre a minha vida. Ao chegar à casa, deparei-me com a louça suja se acumulando na pia e a roupa no tanque. Na verdade, nem sei por onde começar, nunca fiz nada disso.
Tenho mais de trinta anos e nunca trabalhei e nem terminei os estudos, inicialmente, quando percebi que minha mãe não se importava (e até gostava) de me sustentar, achei que estivesse levando grandes vantagens. Cansei de rir de meus colegas que acordavam cedo para trabalhar e estudar, enquanto eu ficava o dia inteiro sem fazer nada, podendo dormir até a hora que quisesse, embora, confesso, que sentia uma ponta de inveja, quando os via evoluindo, com seus carros, famílias, carreiras e saindo daqui do bairro para um lugar melhor.
Passava o dia inteiro assistindo TV e jogando videogame. Minha mãe não se importou quando encontrei uma companheira que compartilhava o mesmo estilo de vida que o meu e a convidei para viver comigo em meu quarto. Ficávamos o tempo todo no quarto, diante da televisão, enquanto ela devorava vários potes de sorvetes. Era magrinha quando veio morar comigo, mas engordou bastante. Minha mãe nunca falou nada.
Agora, após a missa de sétimo dia, caí na real. Verifiquei o saldo bancário de minha mãe está zerado, o que irei fazer? O gás está acabando, as contas de água e luz vencerão dentro de três dias e o plano de TV e internet também. Tudo a minha mãe que pagava. No congelador, apenas um pote de sorvete de morango. Quando ela se der conta, também irá me abandonar.
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