MPF denuncia abandono de arquivos da ditadura em prédio do IML

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou nova manifestação à Justiça Federal no processo que trata da preservação do acervo histórico localizado no antigo prédio do Instituto Médico-Legal (IML), situado na Lapa, Rio de Janeiro.

Na réplica, o MPF rebateu as contestações apresentadas pela União e pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, reafirmando a necessidade de medidas urgentes para proteger o patrimônio documental, que inclui registros da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e documentos relacionados a violações de direitos humanos durante a Ditadura Militar no Brasil (1964–1985).

A manifestação é assinada pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo, que sustenta que os argumentos apresentados pelos entes públicos não afastam a responsabilidade pela preservação do imóvel e do acervo.

Impasse entre União e estado mantém prédio abandonado

Segundo o MPF, a divergência entre os dois entes federativos criou um cenário de indefinição administrativa.

Embora o prédio pertença à União, ele permanece sob posse e gestão do estado do Rio de Janeiro, sem que qualquer das partes assuma integralmente a responsabilidade pela conservação do imóvel e dos documentos.

“Há um verdadeiro limbo administrativo em que nenhum dos entes assume integralmente a responsabilidade pelo imóvel e pelo acervo. Enquanto isso, o patrimônio público segue se deteriorando”, afirmou o procurador Julio Araujo.

Para o MPF, a situação exige intervenção judicial para impedir que o impasse institucional continue colocando em risco documentos de alto valor histórico.

Documentos têm importância para memória e direitos humanos

O órgão ressalta que o objetivo da ação não é apenas a reversão formal do imóvel à União, mas também garantir medidas concretas de proteção ao acervo documental existente no local.

Segundo o MPF, os arquivos possuem relevância histórica e podem contribuir para a investigação de graves violações de direitos humanos ocorridas no país.

O procurador também lembrou que o Brasil já foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em processos relacionados à investigação de crimes da ditadura e tem obrigação internacional de preservar documentos que possam ajudar na reconstrução da verdade histórica.

Pedido à Justiça

Na manifestação apresentada no processo, o MPF pede que a Justiça:

  • reconheça formalmente a propriedade federal do imóvel
  • determine que a União conclua o processo de reversão do prédio, sob pena de multa
  • realize nova audiência de conciliação entre as instituições envolvidas

O objetivo é viabilizar uma solução definitiva para o prédio e para o acervo histórico.

Vistorias revelaram acervo em situação de abandono

Em março de 2025, o MPF realizou uma visita técnica ao prédio do antigo IML e identificou um vasto conjunto de documentos históricos em condições precárias.

Segundo o levantamento, foram encontrados:

  • cerca de 2,9 mil metros lineares de documentos
  • aproximadamente 440 mil itens iconográficos, incluindo fotografias e microfilmes

O material foi produzido pela Polícia Civil entre as décadas de 1930 e 1960.

Entre os registros existem documentos que podem contribuir para investigações sobre desaparecimentos políticos e violações de direitos humanos durante a ditadura militar.

As inspeções também identificaram condições inadequadas de preservação, com documentos expostos à:

  • umidade
  • sujeira
  • fezes de animais

Além disso, foram constatadas janelas quebradas, infiltrações e presença frequente de invasores no imóvel.

Histórico do processo

Diante da situação, o MPF ajuizou ação civil pública em setembro de 2025 para exigir que a União reassumisse o prédio e adotasse medidas de preservação.

Em outubro de 2025, a Justiça Federal concedeu liminar determinando que o governo federal concluísse o processo de reversão do imóvel e adotasse medidas permanentes de manutenção.

Posteriormente, em dezembro de 2025, a Justiça determinou medidas emergenciais, como reforço da vigilância e retirada do acervo, diante do risco de deterioração.

Já em fevereiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região acolheu recurso do MPF e determinou que o estado do Rio de Janeiro comprovasse as condições de segurança do prédio, após novas vistorias apontarem falhas na proteção do imóvel.

Com informações de assessoria

Wagner Sales – editor de conteúdo

Foto Divulgação

WhatsApp