MPF pede reordenação do Monte Cardoso Fontes na Tijuca

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública para reordenar o uso da área conhecida como Monte Cardoso Fontes, localizada em trecho sensível do Parque Nacional da Tijuca e da Área de Preservação Ambiental (APA) Municipal da Serra dos Pretos Forros, no Rio de Janeiro.
A iniciativa busca corrigir falhas de gestão e fiscalização que vêm permitindo práticas irregulares na região, associando a proteção da Mata Atlântica à necessidade de organizar o exercício da liberdade religiosa no local.
Uso religioso e impactos ambientais
O objetivo central da ação é reestruturar a atuação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Município do Rio de Janeiro para regular o uso religioso da área.
Grupos religiosos utilizam o monte há anos como espaço de oração e reclusão espiritual. No entanto, segundo o MPF, a ausência de normas claras e de fiscalização adequada transformou essa ocupação contínua em fator de pressão ambiental.
Autor da ação, o procurador da República Antonio do Passo Cabral afirma que a medida não pretende impedir a prática religiosa, mas garantir sua regularização:
“A pretensão da ação não é impedir o uso religioso do espaço, mas sim a regularização da sua utilização”, destacou.
Ele ressalta que, embora o local seja visto pelos fiéis como espaço de conexão espiritual, o exercício da liberdade religiosa deve ser compatibilizado com o direito coletivo ao meio ambiente equilibrado.
Degradação ambiental na Mata Atlântica
A área ocupa posição estratégica entre as zonas Norte e Oeste do Rio e abriga trechos relevantes de Mata Atlântica, bioma protegido pela Constituição e por legislação específica.
De acordo com o MPF, foram constatadas:
- Queimadas;
- Abertura de trilhas sem autorização;
- Desmatamento progressivo;
- Uso da floresta como moradia permanente.
Diligências apontaram ainda acampamentos fixos, barracas montadas de forma contínua, clareiras abertas na mata e árvores marcadas com símbolos religiosos.
Além disso, imóveis de alvenaria pertencentes ao ICMBio estariam abandonados, tendo sido invadidos e adaptados para uso irregular. Para o procurador, o cenário configura um “estado de coisas patentemente ilícito”, mantido pela ausência de fiscalização efetiva há pelo menos uma década.
Medidas estruturais propostas
A ação propõe um processo estrutural para reorganizar a atuação administrativa dos órgãos responsáveis. A ideia é estabelecer:
- Diretrizes permanentes de atuação;
- Metas e ciclos de avaliação;
- Participação ampliada da sociedade;
- Inclusão de entidades religiosas e associações de moradores no diálogo.
O MPF sustenta que a prática religiosa é valor constitucional protegido, o que exige solução dialogada e compatível com a preservação ambiental.
Pedidos à Justiça
Entre as medidas solicitadas pelo MPF estão:
Medidas imediatas (até 30 dias):
- Vistoria conjunta com equipes de serviço social e meio ambiente;
- Mutirão de limpeza;
- Instalação de sinalização informativa;
- Interdição de imóvel do ICMBio ocupado irregularmente.
Medidas estruturais (até 90 dias):
- Apresentação de plano de reestruturação pelo ICMBio e pelo Município do Rio;
- Protocolos permanentes de atuação dos servidores;
- Isolamento das áreas ambientalmente mais sensíveis;
- Adoção de medidas compatíveis com a Política Nacional para a População em Situação de Rua.
A ação também requer a conclusão da revisão do Plano de Manejo do Parque Nacional da Tijuca, com a inclusão de normas claras sobre o uso religioso da área.
Com informações de assessoria
Wagner Sales – editor de conteúdo
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