Onde Está Luís Gama, Deve Estar Pertinho da Praça do Rosário em Lorena?

Onde está Luís Gama em Lorena? Essa pergunta me passa em minha mente enquanto percorro as ruas históricas da cidade, carregadas de memórias que testemunham o tempo. Gama, um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XIX, não é apenas uma sombra do passado; ele é um símbolo de resistência e luta. Mas, ao mesmo tempo, sua presença parece estar oculta, como se as camadas do tempo buscassem esquecê-lo. 

Nascido em Salvador em 1830, filho de mãe africana livre e pai português, a trajetória de Gama é marcada por desafios e superações. A venda feita pelo pai, uma cruel consequência das dívidas de jogo, o levou a Lorena, onde ele daria os primeiros passos da sua incansável busca pela liberdade. Quantos outros, como ele, foram colocados à margem da sociedade, escondidos entre as fendas da história? Lorena, como muitos lugares que receberam o peso da escravidão, guarda um silêncio sobre as suas populações marginalizadas. 

E onde está Luis Gama, nesse contexto? Escondido pela cor da sua pele, à espera de um momento oportuno para mostrar seu valor, ou mesmo se dando tempo para quem sabe, “embranquecer”, numa tentativa de buscar aceitação? O jovem Gama, que aprendeu a ler e escrever contra todas as probabilidades, e que aos 18 anos conquistou sua liberdade com bravura, passou a desafiar um sistema que o mantinha à margem. 

Ele não se contentou em ser um mero espectador na história; tornou-se um agente de transformação, utilizando a palavra e a lei como armas. Sua frequência como ouvinte na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mesmo depois de ter sido proibido de certo acesso, exemplifica sua determinação. Essa luta constante, no entanto, faz perguntar: onde ele se encaixa hoje? 

Afinal, a história é feita por aqueles que são lembrados e, lamentavelmente, por aqueles que são esquecidos. Gama libertou mais de 500 pessoas da escravidão, uma guerra que ele travou não apenas em tribunais, mas também nas mentes e corações de uma sociedade que precisava despertar para a injustiça.Enquanto os maiores prazeres da cultura brasileira, como a música e a dança, têm suas raízes na resistência e no legado das culturas africanas, a lembrança de figuras como Gama ainda paira como uma sombra. É fundamental resgatar sua presença em Lorena e em outros cantos do país.

“Luís Gama, onde está você?”, pergunto-me novamente, enquanto observo as ruas por onde ele pode ter passado, fazendo suas reflexões e lutando por justiça. A resposta não está apenas em um passado longínquo, mas em nossa capacidade de trazer à luz essas narrativas, de recontar a história com sua voz forte e independente. A presença de Luís Gama deve ser um chamado à ação, um convite à reflexão sobre como a história é contada e sobre quem está no centro dessa narrativa. Ele merece ser celebrado não apenas como um herói do passado, mas como um modelo a ser seguido, um símbolo de resistência e de luta contínua pela igualdade e pelo reconhecimento de todas as vozes que ainda permanecem, silenciosas, à espera de serem ouvidas.

Caminhar pelas ruas que um dia ele percorreu, que possamos encontrar o espírito de Luís Gama em cada canto, em cada passo que damos em direção à justiça e à verdade. É nosso dever ressuscitar sua memória, não só para que nunca seja esquecido, mas para que sua luta continue a inspirar novas gerações.

 

Denilson Costa

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