ONU discute escalada militar dos EUA no Caribe após pedido da Venezuela

A pedido do governo da Venezuela, o Conselho de Segurança da ONU realizou, na terça-feira (23/12), uma reunião de emergência para discutir a intensificação da presença e das operações militares dos Estados Unidos no sul do Caribe, próximo à costa venezuelana. O encontro ocorreu em meio a alertas sobre o aumento das tensões e os riscos à estabilidade regional.

O secretário-geral assistente das Nações Unidas para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz, Khaled Khiari, afirmou que as operações militares norte-americanas se intensificaram desde a última reunião do Conselho sobre o tema, realizada em 10 de outubro. Segundo ele, o secretário-geral da ONU, António Guterres, permanece disponível para apoiar iniciativas de diálogo e mediação entre as partes envolvidas, ressaltando que o diálogo é o único caminho para evitar maior instabilidade e sofrimento humano na região.

O governo dos Estados Unidos justifica as ações como parte de um “conflito armado não internacional” contra o narcotráfico, com base no Artigo 51 da Carta das Nações Unidas. O presidente Donald Trump declarou publicamente que usará “todo o poder dos Estados Unidos” para combater cartéis de drogas, independentemente de onde atuem.

A Venezuela, por sua vez, rejeita essa narrativa e acusa Washington de violar a soberania nacional e a integridade territorial do país. Em comunicações oficiais ao Conselho de Segurança, o governo venezuelano classificou as ações como uma grave ameaça à paz e à segurança internacionais, além de uma violação da proibição do uso ou da ameaça do uso da força.

Khiari informou que os Estados Unidos continuam realizando ataques contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas no sul do Caribe e no leste do Oceano Pacífico. De acordo com dados das autoridades norte-americanas, ao menos 105 pessoas morreram nessas operações desde 2 de setembro. As localizações exatas dos incidentes não foram divulgadas, apenas a indicação de que ocorreram em águas internacionais ou em áreas sob responsabilidade do Comando Sul.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos classificou os ataques aéreos como contrários ao direito internacional, destacando que o combate ao narcotráfico deve ser tratado como uma questão de aplicação da lei, e não por meio do uso letal da força. A ONU reiterou o apelo por investigações independentes e transparentes.

A escalada das tensões se agravou desde o fim de novembro, quando os Estados Unidos designaram o chamado Cartel dos Sóis como organização terrorista estrangeira, fecharam totalmente o espaço aéreo venezuelano e apreenderam navios petroleiros próximos à costa do país. Novas sanções também foram impostas a empresas de navegação ligadas ao setor petrolífero venezuelano.

Autoridades da Venezuela classificaram as medidas como um bloqueio aéreo e naval unilateral. Em resposta, a Marinha venezuelana passou a escoltar navios petroleiros que deixam seus portos, segundo relatórios recentes.

Durante a reunião, Khiari destacou que, embora alguns aliados regionais apoiem as ações dos Estados Unidos, outros países expressaram preocupação com a crescente militarização do sul do Caribe e pediram respeito ao direito internacional e à soberania dos Estados. Diversas delegações defenderam a redução das tensões e a retomada do diálogo diplomático.

O representante dos Estados Unidos no Conselho rejeitou reconhecer Nicolás Maduro como autoridade legítima da Venezuela, classificando-o como líder de uma organização narcoterrorista. Já o embaixador venezuelano, Samuel Moncada, acusou Washington de cometer um “crime de agressão” e pediu ao Conselho de Segurança a condenação explícita das ações norte-americanas, a retirada das forças militares e o fim do bloqueio. Segundo ele, caso a escalada continue, a Venezuela poderá exercer o direito à legítima defesa.

Com informações de ONU News

Wagner Sales – editor de conteúdo

Foto: ONU/Eskinder Debebe

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