Pela fresta da janela


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Por: Jorge Eduardo Magalhães
Moro há muitos anos nesta comunidade, mas posso dizer que sou muito mais que uma pessoa reservada, vivo, praticamente, na reclusão e no celibato. Tenho uma vida solitária nesta simples casa, apenas com uma espécie de minúscula área para tomar um pouco de sol. Compro comida e outras necessidades, enviando mensagens para o pequeno mercado aqui da comunidade, transfiro o dinheiro pelo próprio aplicativo do banco pelo celular e eles deixam as compras na porta.
Não é questão de preconceito, é mesmo por não querer me contaminar com os vícios da comunidade. Viemos morar aqui quando ainda era criança. Meu pai começou a beber compulsivamente, minha mãe o traiu com a comunidade inteira, meu irmão entrou para o crime, sendo morto em uma troca de tiros com a Polícia e minha irmã engravidou de um marginal.
Sendo assim, há muitos anos, vivo a minha vida solitariamente. Nunca me casei nem tive filhos nem muito menos uma relação sexual, também nunca senti necessidade. O dinheiro da minha minguada aposentadoria dá para suprir minhas necessidades que não são muitas.
Pela fresta de minha janela, tornei-me aquilo que podemos chamar de uma pessoa observadora, que testemunha o cotidiano de todos na comunidade no mais completo anonimato. Mentalmente, sem registrar por escrito, desempenho o papel de cronista do coletivo.
Há alguns meses veio morar aqui do lado uma família composta por um casal com um casal de filhos adolescentes. Pareciam sérios, mas percebi que a mãe está começando a dar conversa para um malandro da região, assim como o marido está frequentando, assiduamente, a birosca da rua. O menino está começando a fazer amizade com os outros garotos, cheios de gíria, da comunidade.
Contudo, quem mais me chamou atenção foi a menina, que parecia uma boneca e, em pouco tempo, vulgarizou-se e está namorando um rapaz envolvido com o crime. Não tenho visto nem ela nem o irmão com uniforme de escola. Parece que ela está engordando. Será que está grávida. O mesmo destino de minha família, apodrecendo no meio.
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