Pitacos de uma repórter

Está ficando chato esse lance de, praticamente toda semana, aparecer eu aqui, com meus PITACOS homenagens, a reverenciar alguém que amo e que acaba de partir deste mundo. Até mesmo para quem que, como eu, acredita piamente num novo encontro, na vida eterna, e que, seguidora de Santo Agostinho, leva a sério o poema que ele escreveu há quase dois mil anos, no qual nos convence que “a morte não existe”. Sei – e não falta gente para me alertar – que a essa altura de minha vida, perdas se tornam comuns. Mas como a gente pode achar comum perder parentes, amigos ou aqueles que apenas admiramos? Às vezes fica difícil!

Como foi assustador, ontem, do nada, deparar com a notícia de que o célebre maquiador das estrelas, professor considerado e premiado e seu ofício, Thomas Dourado, havia falecido. Nossa parceria, que evoluiu para uma sólida amizade, vem lá do início dos anos de 1980, quando assumi a direção da revista Sétimo Céu.

Thomas passou a ser um dos maquiadores mais constantes das celebridades que ilustrariam nossas capas, nossos pôsteres, nossos editoriais de moda e todo tipo de matéria que “inventávamos” para ilustrar as tão coloridas páginas daquela tradicional revista da Bloch Editores, como por exemplo, a transformação de leitoras de todo canto do País. E Thomas as transformava mesmo, quase que como uma fotoplastia. Também praticava – e ensinava – com maestria o outro lado, o de tornar horrendas alguns personagens com cicatrizes e feridas que convenciam pelo realismo. Além de amigos, éramos vizinhos em Olaria.

Nos falávamos toda semana, quando, não raro, nos topávamos em mercados ou em feiras deste bairro da Zona Norte carioca que ainda conserva um quê de cidade do interior. Thomas, que como professor e palestrante do assunto, em universidades inclusive, formou centenas de novos maquiadores que hoje atuam tanto no mundo das artes e espetáculos quanto nos melhores salões de beleza, também recebeu muitos prêmios e títulos que honraram seu ofício. E trabalhou intensamente até alguns dias atrás.

Como já rondava pelos oitenta anos de idade, a TV Globo, ou alguma famosa agência de publicidade e, mais recentemente, até streamings com produções de filmes e séries internacionais, vinham busca-lo e depois o traziam em Olaria, “apenas” para criar o conceito visual das principais personagens dessas produções. Muito chique e bem caro. Nestas décadas de parcerias aprendemos muito um com o outro. Até tive o privilégio de ser maquiada pelo Thomas em eventos que comparecíamos juntos, como a um badalado casamente de celebridades no início dos anos de 1980 ou, mais recentemente, quando melhorou meu visual, para um encontro de veteranos da Bloch, realizado em minha casa. Eu até brinquei dizendo – “ser maquiada pelo Thomas Dourado em meu quarto, não tem preço “.

O que não tem preço mesmo são as doces lembranças que sempre vou guardar desta enriquecedora parceria e bela amizade que construímos por décadas. Até querido amigo…

Texto: Luzia Salles

Wagner Sales – editor de conteúdo

Foto: arquivo pessoal

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