Reflexões pós-parto

Por: Jorge Eduardo Magalhães

Ainda estou de resguardo. A criança não tem nem um mês e já a odeio com toda a força do meu coração. Foi um sentimento repentino. Desde criança dizia que queria ter filho antes dos dezoito anos. Talvez por influência de minha mãe e minha avó que deram à luz quando eram mais novas do que eu.

Aqui na comunidade, a maioria das meninas também tiveram filhos com menos de quinze anos. Acho que fui influenciada pelo meio. Durante a gravidez, até gostei, senti-me especial, a vizinhança me paparicando e me tratando com carinho; afinal de contas, eu teria o mesmo destino que a outras.

Logo após o parto, fiquei encantada, trocando fralda, dando peito; parecia estar brincando de boneca; mas, de repente, caiu a ficha. A criança chora o tempo inteiro, não posso conversar no celular, ver a internet, assistir às minhas séries. Acho que fiz uma grande bobagem. A única vantagem é que foi um motivo para parar de estudar.

O pai da criança sumiu. Quando falei da gravidez, disse que o filho poderia não ser dele. Uns dizem que está preso, outros que está vivendo em outro estado, com outra mulher. Pensei que quando soubesse que a criança nasceu, fosse entrar em contato. Mas, só agora me dei conta que eu era apenas mais uma.

Olho para esta criança que não para de chorar e tenho vontade de sufocá-la com o travesseiro. Não. Tenho medo das consequências. Quem sabe não morre sufocada com refluxo ou mesmo com uma febre. Tomara!

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