Setembro Amarelo

Por: Jorge Eduardo Magalhães
Antes de sair para a escola, olhou o frasco com tranquilizantes. Pensou em tomar por inteiro. Não teve coragem. Arrumou-se e saiu para o trabalho. Passou pela sala e a mãe já estava acordada. Não lhe deu nem bom dia, foi logo pedindo dinheiro para as compras.
– Só isso? – disse a mãe.
– O salário só irá cair daqui a dois dias.
– Você não serve para nada mesmo, não se casou, não me deu netos, ainda por cima, escolheu essa profissão de professora, que te paga tão mal.
Teve o impulso de dar uma resposta à mãe, mas engoliu seco, deu-lhe o dinheiro e saiu. No caminho ao trabalho, recordou-se de sua vida. Fizera apenas o curso Normal, chegara a iniciar o curso de Pedagogia; entretanto, a mãe viúva sugou tanto o seu dinheiro que precisou interromper os estudos. Todos os seus namorados, sua mãe pressionava para terminar. Fora fraca, cedera as suas imposições, reconhecia. A vida não fazia mais sentido, viver era doloroso para ela.
Chegando à unidade escolar onde trabalhava, logo ouviu uma piada da Diretora. Segurou-se para não partir para cima dela. Respirou fundo e se dirigiu à sua sala de aula. No corredor da escola, foi abordada pela coordenadora:
– Você terá que fazer um trabalho com as crianças sobre o Setembro Amarelo, da prevenção ao suicídio.
– Eu sei – respondeu.
– Trouxe o material?
– Sim.
A escola não cedia cola, nem cartolina ou outro material, e teve que comprar do seu próprio bolso.
Fez o mural praticamente sozinha, pois as crianças indisciplinadas e desrespeitosas corriam pelo corredor, sendo chamada atenção pela Diretora:
– Você não tem jeito mesmo, não tem o menor domínio de turma.
Finalmente, terminou o mural. A Diretora tirou foto com seu celular e enviou para a Secretaria de Educação. Na saída da escola, a pobre professora foi abordada por uma mãe de aluno que, aos gritos, reclamava que seu filho havia se machucado, durante sua aula. A Diretora e as colegas nada diziam, apenas a olhavam com ar de reprovação.
Chegando a casa, sua mãe reclamou que o dinheiro das compras não dera para quase nada. Trancou-se no quarto, começou a chorar, olhando para o frasco de tranquilizantes.
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