Sorveteria da Praça


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Por: Jorge Eduardo Magalhães
Não. Não sou alcóolatra como dizem. Apenas tenho exagerado na bebida, ultimamente. Não sou indolente, apenas estou em uma fase difícil, sem disposição para o trabalho. Meus familiares não querem saber de mim, todos foram embora e fiquei sozinho nesta casa, agora sem luz, sem água e está imunda. Mas é só uma fase. Vou beber um conhaque para me animar.
De repente vem em minha mente a sorveteria lá da praça. Tem mais de vinte anos que não vou lá, apesar de ser tão perto. Conheci a doce Helena em uma festa e marcamos para nos encontrarmos no dia seguinte, na sorveteria. Lembro-me que se sentava no mesmo banco da praça o João Cachaça, biriteiro do bairro, que fazíamos chacota com ele e, sem esboçar nenhuma reação, ficava ali quieto, em seu banco.
No dia do encontro, saí mais cedo, mas no caminho, encontrei alguns “amigos” que me chamaram para tomar uma cerveja. Como estava cedo, sentei-me e pedi uma, que ficaram em mais de dez. Ainda estava cedo. Resolvi voltar pra casa e descansar uma meia hora. Só acordei no dia seguinte.
Não fui ao encontro com Helena, voltei ao local. João Cachaça estava parado no mesmo banco. Perguntei na sorveteria por Helena. Um funcionário me disse que a moça havia esperado mais de uma hora e fui embora. Perguntei por todos no bairro pelo seu paradeiro, mas ninguém sabia me informar.
Nunca mais a vi e nem voltei naquela praça. Contudo, passei a frequentar diariamente aquele bar. A cerveja foi se transformando em cachaça, meus amigos foram se casando, mudando de bairro e eu fiquei ali no mesmo local, na casa onde fora criado. Tudo ficara estagnado.
Resolvo voltar à praça. Antes tomo uma naquele bar. O dono ainda é o mesmo, somente com a cabeça branca. Finalmente chego à praça. Como está degradada, abandonada. A sorveteria está fechada. Parece que o imóvel está abandonado, com seu letreiro, escrito “Sorveteria da Praça”, pendurado.
Sento-me no banco. Algumas crianças fazem chacota comigo. Dou-me conta que estou no mesmo banco em que João Cachaça costumava se sentar.
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