Sudão em Colapso: ONU denuncia execuções étnicas, fome e crimes de guerra em meio a silêncio internacional

Mais de dois anos após o início da guerra entre as Forças Armadas do Sudão e as Forças de Apoio Rápido (RSF), o país vive o que a ONU classifica como uma “catástrofe humanitária sem precedentes”.
Relatórios apresentados nesta semana em Genebra, pela Missão Internacional Independente de Apuração dos Fatos, revelam um quadro de execuções étnicas, violência sexual sistemática, saques em massa e destruição deliberada de infraestruturas vitais, em meio ao avanço da fome e do desespero da população civil.
O documento acusa as partes em conflito de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, destacando que a população está sendo “punida coletivamente” por motivações étnicas e políticas.
Segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, já foram registrados 285 ataques a unidades de saúde desde o início da guerra, resultando em mais de 1.200 mortes apenas entre 2023 e 2025.
Tedros afirmou que “o sistema de saúde sudanês está em colapso total”, com hospitais transformados em bases militares ou completamente destruídos por bombardeios.
Em áreas sitiadas como El Fasher, capital de Darfur do Norte, milhares de civis permanecem presos, sem acesso a alimentos, água ou medicamentos. As comunicações estão cortadas há semanas, impedindo a avaliação completa da tragédia.
O alerta mais dramático vem do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Segundo a diretora executiva da agência, Catherine Russell, cerca de 130 mil crianças estão em risco extremo em El Fasher, expostas a riscos de raptos, violência sexual, mutilações e morte.
“Nenhuma criança está segura no Sudão. Famílias inteiras desapareceram e a fome está empurrando comunidades inteiras para o desespero”, disse Russell em comunicado.
A ONU estima que mais de 10 milhões de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas desde 2023 — o maior deslocamento interno do mundo atualmente.
O presidente da Comissão de Apuração dos Fatos, Mohamed Chande Othman, foi contundente ao pedir uma reação global.
“O mundo deve escolher entre o silêncio ou a solidariedade. Cada dia de inação é uma sentença de morte para civis inocentes”, afirmou Othman.
Ele defende a criação de um tribunal judicial internacional independente para investigar e julgar os responsáveis pelos crimes cometidos, destacando que “a impunidade é o combustível da violência”.
O relatório também aponta o uso da fome como arma de guerra.
A destruição de armazéns de alimentos, o bloqueio de rotas humanitárias e o saque de comboios da ONU têm impedido a chegada de ajuda básica a milhões de pessoas.
Segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), mais de 18 milhões de sudaneses enfrentam insegurança alimentar severa, sendo cinco milhões em situação de fome extrema.
Silêncio diplomático e impasse internacional
Apesar das denúncias, a resposta internacional tem sido tímida.
As divisões no Conselho de Segurança da ONU — marcadas por interesses regionais e econômicos — têm travado medidas mais enérgicas, como sanções amplas ou envio de uma missão de paz robusta.
Analistas veem o conflito sudanês como uma guerra esquecida, eclipsada por crises em outras partes do mundo.
“O Sudão é hoje o epicentro de uma tragédia invisível, onde a humanidade está sendo testada”, afirmou um diplomata europeu sob anonimato.
Apelo final: ouvir o povo sudanês
Encerrando a sessão em Genebra, Othman fez um apelo direto à comunidade internacional:
“A voz do povo sudanês não pode ecoar no vazio. Ela precisa ser ouvida, lembrada e transformada em ação.”
A ONU reafirma o pedido por um cessar-fogo imediato, acesso humanitário irrestrito e mecanismos de justiça internacional que garantam que os responsáveis por atrocidades não permaneçam impunes.
Com informações de ONU News
Wagner Sales – editor de conteúdo
Foto: Unicef/Mohammed Jamal
