Não pense que o esporte para o negro é somente uma competição; é, na verdade, uma resistência. É uma luta diária contra estigmas, uma afirmação de identidade e um grito de liberdade. E quando falamos de resistência, é impossível não lembrar de João Carlos de Oliveira, o icônico João do Pulo, cuja trajetória é um verdadeiro exemplo de como o esporte pode ser uma ferramenta de superação e resiliência.
Nascido em 28 de maio de 1954, em Pindamonhangaba, João veio ao mundo em uma família humilde, enfrentando desafios desde muito jovem. Com apenas sete anos, começou a trabalhar como lavador de carros, e a vida já lhe ensinava que o caminho seria árduo. Mas ele não se deixou abater. Ao contrário, encontrou no esporte uma forma de escapar das limitações que a sociedade lhe impunha.
Ingressou no Exército e, mais tarde, se destacou como um dos maiores atletas da história do Brasil. Em 1975, aos 21 anos, João fez história ao conquistar o recorde mundial do salto triplo durante os Jogos Pan-Americanos na Cidade do México. Sua marca de 17,89 metros não só o consagrou como um dos melhores do mundo, mas também se tornou um símbolo de resistência para muitos que, como ele, lutavam contra as adversidades.
João do Pulo não se limitou a ser um competidor; ele foi um verdadeiro herói da pátria. Em uma época em que o racismo e a discriminação eram evidentes, seus feitos no atletismo quebraram barreiras, mostrando que o talento e a determinação podem superar qualquer preconceito. Ele se tornou um ícone, não apenas por suas conquistas, mas por representar a força da comunidade negra no Brasil.
Mas a história de João não é feita apenas de vitórias. Sua trajetória também é marcada por desafios e reveses. Após um grave acidente de carro em 1981, que resultou na amputação de sua perna direita, o mundo do esporte parecia ter lhe virado as costas. Enfrentou a depressão, o alcoolismo e dificuldades financeiras, momentos que testaram sua resistência de maneiras que poucos poderiam imaginar. No entanto, mesmo diante das adversidades, João encontrou um novo propósito: a política. Ele se tornou deputado estadual em São Paulo, onde lutou por melhorias para a sua comunidade e para aqueles que, como ele, enfrentavam batalhas diárias.
Faleceu em 29 de maio de 1999, aos 45 anos, mas seu legado persiste. João do Pulo deixou uma marca indelével na história do esporte e na luta pela igualdade racial no Brasil. Ele provou que cada salto, cada vitória, e até mesmo cada derrota, são partes de uma jornada de resistência que vai muito além das competições.
Assim, quando olhamos para a trajetória de João do Pulo, percebemos que o esporte é, sim, uma competição, mas também é uma declaração de resistência. Cada canto do país, lembrando-nos de que, apesar dos desafios, é possível soar mais alto. É uma lição de que, mesmo diante das dificuldades, a esperança e a determinação podem nos levar a alturas inimagináveis. E assim, o legado de João do Pulo continua a inspirar novas gerações a lutar, a saltar e a resistir.
Denilson Costa