“O tambor que não se cala”: Vó Luiza, símbolo da resistência umbandista, enfrenta despejo e intolerância religiosa em SC

Aos 111 anos, a ialorixá mais velha em atividade no Brasil luta para manter viva a fé e a tradição da Umbanda após ser retirada do terreiro onde viveu por décadas, em Camboriú. O caso reacende o debate sobre racismo religioso e o direito ao culto das religiões de matriz africana.

 

O coração fechado do terreiro

 

Com mais de um século de vida e devoção, Vó Luiza de Iemanjá — conhecida carinhosamente como a avó espiritual da Umbanda — viu seu terreiro ser interditado pela Defesa Civil de Camboriú, em Santa Catarina.
Aos 111 anos, a Ialorixá se tornou símbolo de resistência e fé ao lutar, agora de uma pequena casa alugada pela prefeitura, pelo direito de continuar praticando sua religião.

O espaço onde funcionava a Tenda de Umbanda Vovó Caxambi foi interditado sob alegação de risco de inundação causado por uma adutora da empresa municipal EMASA.
Mais do que um endereço, o local era um templo vivo da ancestralidade, onde, por décadas, Vó Luiza acolheu fiéis em busca de cura, bênção e consolo espiritual.

“Minha casa é minha fé. Quando ela fecha, é como se o coração também fechasse”, lamentou a ialorixá em entrevista ao Coletivo Bereia.

 

Símbolo cultural e espiritual

Nascida no interior de uma senzala, neta de pessoas escravizadas, Vó Luiza começou a benzer ainda criança e se iniciou na Umbanda nos anos 1920.
Desde então, dedicou sua vida à caridade, ao acolhimento e à preservação da tradição afro-brasileira no Sul do país.

No terreiro, cada canto e ritual carregavam a força da memória coletiva.
Ela é como uma mãe espiritual para todos nós”, descreve um dos frequentadores do espaço.

Para a antropóloga Maria Fernandes, “quando um terreiro é invadido ou um dirigente é atacado, não é apenas a fé que é atingida — é a memória, a identidade e a resistência de um povo”.

 

A interdição e a luta por reparação

O laudo técnico da Defesa Civil determinou a retirada imediata dos moradores e a demolição do imóvel, alegando risco de rompimento da adutora.
Em agosto de 2025, a Justiça determinou que a Prefeitura de Camboriú garanta uma nova moradia adequada e um espaço digno para o exercício religioso de Vó Luiza e de seu filho.

Enquanto aguarda a execução da sentença, a mãe de santo vive em um imóvel provisório, onde não pode realizar rituais.

Não posso tocar tambor, nem acender vela. Fico só rezando”, contou emocionada.

 

Mobilização e apoio

A situação de Vó Luiza mobilizou entidades civis e religiosas de todo o país.
O Instituto Nacional Afro-Religioso (INAR) e a Comissão de Liberdade Religiosa da OAB-SC exigem uma solução definitiva que reconheça o valor histórico e espiritual do terreiro.

Nas redes sociais, a campanha #JustiçaPorVóLuiza tem ganhado força, levantando o debate sobre o racismo religioso e o direito das comunidades afro-brasileiras ao uso de seus espaços sagrados.

Para movimentos de direitos humanos, o caso de Vó Luiza evidencia a necessidade urgente de políticas públicas que garantam a liberdade de culto e a preservação dos terreiros como patrimônio imaterial brasileiro.

“Meu axé continua vivo. Mesmo longe do meu terreiro, meu coração ainda trabalha pra quem precisa” diz vó Luiza 

Mesmo afastada do seu espaço sagrado, Vó Luiza mantém acesa a chama da fé.
Em seu novo lar, improvisa um pequeno altar com flores, santos e imagens de orixás. Todos os dias, acende uma vela e canta baixinho os pontos de Iemanjá.

“Eu ainda tô viva. Meu axé continua vivo. Mesmo longe do meu terreiro, meu coração ainda trabalha pra quem precisa.”

Mais do que uma líder religiosa, Vó Luiza é a personificação da resistência espiritual, da fé que não se cala mesmo quando tentam silenciar seus tambores.

Reconhecida por devotos e pesquisadores como uma das ialorixás mais antigas em atividade no Brasil, Vó Luiza representa a força das mulheres na Umbanda, guardiãs da fé, da memória e da cultura.
Sua história é, ao mesmo tempo, denúncia e esperança — o reflexo de um país que ainda luta para garantir o respeito à diversidade religiosa.

Mais do que uma líder, Vó Luiza é avó espiritual que guarda a memória da Umbanda e ensina a força da fé, do acolhimento e da resistência.”

 

Dados recentes:

  • Segundo o Disque 100, em 2023 foram registradas mais de 1.200 denúncias de intolerância religiosa no país.
  • 70% dos casos envolveram ataques a terreiros de Umbanda e Candomblé.
  • O Brasil tem mais de 30 mil templos afro-brasileiros em atividade, segundo o IBGE.
  • A Lei 14.519/2023 instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro).
  • Denúncias podem ser feitas gratuitamente pelo Disque 100 ou pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

 

Com informações de Diego Gonzaga (estagiário)

Wagner Sales – editor de conteúdo

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