Unidos da Inclusão estreia ensaios e reforça a participação de PCDs no Carnaval

O primeiro ensaio da Unidos da Inclusão aconteceu neste sábado, dia 17, no galpão do Estádio do Engenhão, no bairro do Engenho de Dentro. Em clima de alegria contagiante, a bateria mostrou entrosamento e energia, deixando evidente que o desfile tem potencial para surpreender o público.

É a partir do princípio de que inclusão não é favor, mas um direito assegurado por lei, que surge a escola de samba Unidos da Inclusão. Foi criada exatamente com o propósito de garantir que pessoas com deficiência ocupem a avenida de forma legítima e façam parte do espetáculo do Carnaval.

   

A proposta da escola é direta e potente: assegurar a presença de pessoas com deficiência no desfile, não como exceção ou símbolo, mas como protagonistas. O idealizador do projeto, o empresário Rafael Carvalho, é sobrinho de uma pessoa com deficiência. A vice-presidente de comunicação da Unidos da Inclusão, Vera Cruz, explica como nasceu a ideia de criar uma escola de samba formada por PCDs:

A ideia de se montar uma escola de samba PCD, ela pertence ao Rafael Carvalho, que é o presidente da escola de samba, por ele pertencer a uma família atípica e observar, durante todos esses anos, a vontade que as pessoas com deficiência tinham de participar do carnaval e, às vezes, por conta da deficiência, eram rejeitadas. Então, desde cedo surgiu nele essa vontade de ter um espaço dentro do mundo do samba onde os PCDs pudessem ter a sua oportunidade.”

Embora tenha sido criada em setembro de 2025, poucos meses antes do Carnaval, a Unidos da Inclusão está longe de ser um projeto improvisado. Segundo Vera Cruz, a escola foi estruturada com bases sólidas desde o início:

 

“Bom, mesmo sendo recém-criada, ela está bem estruturada, pelo menos os alicerces da escola estão bem formados. Eu consegui reunir pessoas da minha convivência, de mais de 20 anos de samba, e competentes na sua arte de conduzir uma escola de samba e de montar uma escola. Dirigir uma agremiação não é tão fácil assim. Entrei em contato com essas pessoas para que elas pudessem me ajudar a montar a Unidos da Inclusão, porque carnaval a gente não faz sozinho, obviamente temos que ter uma direção, alguém que conduza esse crescimento, é um conjunto de atividades, né?”

Atualmente, a Unidos da Inclusão conta com uma equipe completa e experiente. A escola possui presidente, vice-presidente, diretor de Carnaval, diretor musical — cargo ocupado pelo renomado intérprete Tiãozinho Cruz —, dois mestres de bateria – Mestres Dudu e Luquinha da Mangueira ), intérpretes ( um deles é o Ciganerey ), coreógrafo de comissão de frente e equipe de harmonia. Trata-se de um time de peso, formado por profissionais reconhecidos no mundo do samba.

O enredo escolhido reforça o posicionamento político e social da escola. De acordo com Vera Cruz, a narrativa do desfile será centrada na inclusão como prática concreta e urgente:

O enredo que será apresentado pela escola é justamente falando da inclusão, onde inclusão é uma ação e não uma opção. A gente tem que falar da necessidade da inclusão, a gente tem que abrir os olhos para que as pessoas abracem isso, né?

A expectativa para o primeiro desfile é alta, especialmente pelo papel simbólico que a escola assumirá na abertura do Carnaval carioca. A Unidos da Inclusão será a responsável por abrir os desfiles na Marquês de Sapucaí no dia 13 de fevereiro, primeiro dia oficial de apresentações. Vera Cruz destaca a emoção e a responsabilidade desse momento:

A expectativa desse primeiro desfile é muito grande. Os olhos do mundo inteiro estarão voltados para aquela passarela do samba. Então, é uma tensão muito grande.  Não tivemos tempo para fazer fantasias nem nada, mas a gente tem muita coisa boa ainda para apresentar nesse primeiro dia de desfile.”

Entre os destaques da escola está o mestre de bateria Luquinha da Mangueira, que já ocupou o mesmo cargo na Estação Primeira de Mangueira. Luquinha tem visão monocular e conviveu durante muitos anos com a deficiência de forma silenciosa, revelando sua condição apenas aos 20 anos. Ao falar sobre a experiência de comandar uma bateria formada por pessoas com deficiência, ele quebra estigmas e valoriza o talento dos ritmistas:

“Algumas pessoas com deficiência já vêm com ritmo e são autodidatas, são ´pessoas muito inteligentes, é muito mais prático ensinar a eles.”

A acessibilidade também se faz presente na concepção do samba-enredo. Em parceria com o Instituto Benjamin Constant, a letra foi transcrita em Braile. No dia do desfile, 85 intérpretes de Libras estarão posicionados de frente para o público, com a missão de interpretar a letra do samba na Língua Brasileira de Sinais, garantindo que a mensagem chegue a todos.

A comissão de frente, intitulada Fênix da Superação, promete emocionar o público. Composta por integrantes com diferentes deficiências, a apresentação simboliza o renascimento e a transformação das pessoas com deficiência, reforçando a ideia de que limites podem ser superados. O desfile contará ainda com a apresentação de três casais de mestre-sala e porta-bandeira formados por PCDs, ampliando a representatividade na avenida.

O Estatuto da Pessoa com Deficiência é claro ao assegurar o direito à acessibilidade em espetáculos e eventos culturais. Esse direito não se limita ao acesso como público, mas garante também a participação ativa das pessoas com deficiência como integrantes das apresentações.

Mais do que um ensaio, o encontro de hoje marcou o início de uma nova narrativa no Carnaval: a de que pessoas com deficiência não querem apenas assistir ao espetáculo. Elas querem e têm o direito de fazer parte dele.

 Jornalista: Luana Luna

Fotos de Julia Campos

 

 

 

WhatsApp