Vila Cruzeiro sangra: 64 mortos enfileirados na praça

Após megaoperação policial na Vila Cruzeiro, moradores carregam corpos para denunciar mortes e exigir justiça.

Um dia após uma operação policial que deixou dezenas de mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, a Vila Cruzeiro se transformou em palco de horror e denúncia. Em 29 de outubro de 2025, moradores carregaram ao menos 64 corpos até a Praça São Lucas, exigindo justiça e tratamento digno para as vítimas.

Operação policial: confronto e destruição

No dia 28 de outubro, forças de segurança afirmam que o alvo eram líderes armados do Comando Vermelho. Horas de tiroteio fecharam escolas, paralisaram comércios e mergulharam a comunidade no medo.
O número oficial de mortos é de 64, mas moradores e organizações de direitos humanos afirmam que a tragédia pode ter sido ainda maior.

Sem identificação oficial dos corpos e sem remoção, os moradores decidiram agir. Na manhã seguinte, retiraram corpos de vielas e becos e enfileiraram-nos na praça. A cena era de choque: lençóis improvisados cobriam alguns corpos; outros estavam expostos, marcados por tiros e facadas. Crianças presenciaram tudo.

“Se eles não querem mostrar ao mundo o que fizeram aqui, a gente mostra”, disse um morador, em prantos.

“O crime não foi só matar. O crime é fazer a gente conviver com isso como se fosse normal”, desabafou uma mãe, segurando a mão do filho.

A Secretaria de Segurança afirma que todas as mortes ocorreram durante o confronto e que nenhuma execução foi constatada. O governador elogiou a operação, dizendo que “o Rio não se curva ao crime”.

Mas a visão local é outra:

Para eles, a gente é o crime”, disse um líder comunitário.

O número de mortos pode ser ainda maior.

A diferença de perspectivas evidencia a tensão entre governo e população e o sentimento de abandono vivido pelos moradores.

Organizações como Anistia Internacional pedem investigação independente e rápida. Juristas denunciam possível execução extrajudicial e ocultação de corpos, classificando a ação como “grave violação ao direito humanitário.

A Vila Cruzeiro amanheceu paralisada. Escolas sem aula, postos de saúde fechados, comércio suspenso.

“Mataram nossa rua. Mataram nossa paz”, resumiu uma comerciante, com as portas baixas.

A Praça São Lucas hoje não é apenas um espaço público — é um símbolo da dor de uma comunidade esquecida. Os moradores exigem nomes, respeito e justiça. A pergunta que paira sobre a Vila Cruzeiro, em meio ao silêncio e à tragédia, ecoa mais alto que qualquer tiro:

Quem vai responder por essas mortes?

Com reportagem de Diego Gonzaga

Fotos: Redes sociais

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