“ABC, ABC, toda criança tem que ler e escrever”

É o refrão de uma das campanhas de alfabetização mais famosas do Brasil. Ela conecta diretamente o tema histórico que vínhamos discutindo a luta pelo acesso à educação com as políticas de inclusão escolar do final do século XX.

No Vale do Paraíba paulista, a alfabetização da população negra após a abolição da escravidão constituiu um dos maiores desafios sociais do final do século XIX. A Lei Áurea, sancionada em 1888, extinguiu formalmente a escravidão, mas não foi acompanhada por políticas públicas capazes de integrar os libertos à vida social, econômica e educacional do país. A liberdade jurídica chegou sem escolas, sem reforma agrária, sem oportunidades de trabalho digno e sem qualquer projeto nacional de inclusão. Nesse cenário, milhões de ex-escravizados foram lançados à própria sorte, passando a viver à margem de uma sociedade ainda estruturada pelo racismo e pela exclusão.

No Vale do Paraíba, região profundamente marcada pela riqueza da economia cafeeira, essa realidade tornou-se ainda mais evidente. As antigas elites agrárias mantiveram o controle do poder político e econômico, enquanto a população negra libertada enfrentava pobreza, analfabetismo e marginalização social. O acesso à escola pública era extremamente restrito, tanto pela escassez de vagas quanto pelo preconceito racial, que limitava e, muitas vezes, inviabilizava a permanência de negros nos espaços formais de ensino.

Diante da omissão do Estado, a própria população negra construiu caminhos de resistência por meio da educação. Irmandades religiosas, associações beneficentes, grupos abolicionistas e organizações comunitárias assumiram um papel decisivo na alfabetização de crianças, jovens e adultos negros. Em salões paroquiais, casas simples e espaços improvisados, ensinavam-se as primeiras letras, a leitura da Bíblia, a escrita básica e os conhecimentos essenciais para a sobrevivência em uma sociedade excludente.

A alfabetização, nesse contexto, ultrapassava em muito o ato de ler e escrever. Durante séculos, o conhecimento foi negado à população escravizada como instrumento de dominação. Por isso, cada liberto que buscava instrução para si e para seus filhos não apenas aprendia: rompia um ciclo histórico de silenciamento. Cada assinatura conquistada era um gesto de autonomia; cada palavra decifrada, uma ruptura com a lógica da escravidão.

Nas primeiras décadas do século XX, essa trajetória ganhou novo impulso com o fortalecimento da imprensa negra paulista. Jornais produzidos por intelectuais, trabalhadores e militantes negros transformaram a palavra escrita em arma política. Esses periódicos denunciavam o abandono pós-abolição, enfrentavam o racismo cotidiano e defendiam a educação como caminho de emancipação e consciência coletiva. Escrever, nesse contexto, era resistir; publicar, era existir em uma sociedade que insistia em negar presença e voz.

Assim, a alfabetização no Vale do Paraíba não pode ser compreendida apenas como um processo educacional. Ela foi uma estratégia de sobrevivência, resistência e reconstrução da cidadania. Em meio à pobreza, ao preconceito e à exclusão estrutural, homens e mulheres negros transformaram o aprendizado em ato político. Educar-se significava reivindicar dignidade, reconstruir pertencimento e abrir caminho para as gerações futuras  mesmo quando o Estado insistia em não enxergá-los.

 

Denilson Costa

 

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