Eufemismo cruel

Por: Jorge Eduardo Magalhães
Quando a criança nasceu o médico disse ao casal:
– Vocês têm uma criança especial.
“Que eufemismo cruel”! – pensou uma das partes do casal.
No começo, ninguém percebia; mas à medida que a criança foi crescendo, todos logo perceberam as deficiências locomotoras e intelectuais da criança. O casal disfarçava o constrangimento diante dos pais das outras crianças, principalmente na festas de aniversários infantis; contudo, como não eram pessoas anônimas, fingiam estarem felizes com aquela criança que detestavam.
O casal não conseguiu ter outro filho; porém, para conseguir engajamento, postava nas redes sociais suas fotos junto com a criança, com o comentário: “Nosso presente de Deus”. Na verdade, ambos pensavam no futuro. Os filhos dos seus amigos cresceriam, seriam independentes e formariam uma família. A família deles acabaria ali, não teriam descendentes.
Um dia, a criança teve febre.
– Seria um alívio se não resistisse e nos libertasse dessa prisão.
Postaria a foto da criança com a legenda:
“Hoje o Céu está em festa. Nosso anjinho nos deixou” – pensou um dos membros do casal.
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