Inteligência Artificial vai acabar com empregos ou transformar o trabalho?

A expansão da IA já modifica tarefas dentro das empresas brasileiras, exige novas habilidades e pode ampliar diferenças entre trabalhadores com diferentes níveis de qualificação

A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a fazer parte da rotina de empresas, profissionais e consumidores. No Brasil, ferramentas capazes de produzir textos, analisar dados, reconhecer imagens, automatizar processos e auxiliar na tomada de decisões começam a alterar a maneira como determinadas atividades são realizadas.

A discussão, portanto, já não é apenas se a Inteligência Artificial chegará ao mercado de trabalho. Ela já chegou. A questão é saber até onde irá sua influência e quem estará preparado para acompanhar essa transformação.

Dados da pesquisa TIC Empresas 2025, realizada pelo Cetic.br, mostram que a proporção de empresas brasileiras que utilizavam tecnologias de IA passou de 13% em 2024 para 17% em 2025. Entre as grandes empresas, com 250 ou mais pessoas ocupadas, o percentual chegou a 50%.

O avanço também aparece em diferentes setores da economia. Entre as empresas que já utilizam IA, a tecnologia é aplicada em automação de fluxos de trabalho, marketing e vendas, administração, gestão empresarial, segurança digital, logística e processos de produção.

A IA já está mudando o trabalho no Brasil

Uma das principais características da atual transformação tecnológica é que a Inteligência Artificial não precisa substituir uma profissão inteira para provocar mudanças.

Ela pode assumir apenas parte das tarefas realizadas diariamente por um trabalhador.

Um profissional de marketing, por exemplo, pode utilizar IA para produzir uma primeira versão de um texto, analisar dados de campanhas ou criar diferentes possibilidades de anúncios. Um contador pode automatizar determinadas rotinas. Um programador pode utilizar ferramentas capazes de sugerir códigos. Um jornalista pode recorrer à tecnologia para organizar grandes volumes de informação, transcrever entrevistas ou auxiliar em pesquisas.

Isso significa que a fronteira entre “trabalho humano” e “trabalho realizado por máquinas” está ficando menos definida.

Na prática, a tendência é que algumas tarefas sejam automatizadas enquanto outras continuem dependendo da experiência, da criatividade, da capacidade de julgamento e da responsabilidade humana.

Um estudo divulgado nesta quinta-feira (13) estima que a adoção da IA poderia acrescentar cerca de R$ 986,7 bilhões ao PIB brasileiro entre 2027 e 2030 por meio de ganhos de produtividade. O levantamento, entretanto, não calculou eventuais perdas de empregos, justamente porque analisou o impacto da IA sobre tarefas e produtividade, e não sobre profissões inteiras.

Essa diferença é fundamental para compreender o debate.

Automatizar uma tarefa não significa necessariamente eliminar uma profissão.

Quais empregos estão mais expostos?

As atividades que envolvem grande quantidade de tarefas repetitivas, previsíveis ou baseadas no processamento de informações estão entre as que podem sofrer mudanças mais rapidamente.

Atendimento ao cliente

Chatbots e sistemas automatizados já conseguem responder perguntas frequentes, orientar consumidores e encaminhar solicitações.

Isso pode reduzir a necessidade de trabalhadores em determinadas funções de atendimento, mas também cria uma demanda por profissionais responsáveis pelos casos mais complexos, pelo relacionamento com clientes e pelo controle da qualidade das respostas produzidas pelas máquinas.

Setor administrativo

Digitação, organização de documentos, elaboração de relatórios, classificação de informações e outras atividades burocráticas podem ser parcialmente automatizadas.

O trabalhador administrativo tende, portanto, a precisar migrar de tarefas puramente operacionais para atividades que envolvam análise, organização, acompanhamento e tomada de decisões.

Marketing e publicidade

É um dos campos em que a transformação é particularmente visível.

A IA pode produzir textos, imagens, vídeos, sugestões de campanhas e análises de comportamento do consumidor.

Isso não significa necessariamente o fim dos profissionais de comunicação. Pelo contrário: a capacidade de definir estratégias, compreender o público, verificar informações, desenvolver conceitos criativos e tomar decisões pode ganhar ainda mais importância.

Jornalismo e produção de conteúdo

O jornalismo também está no centro dessa transformação.

A IA pode ajudar na transcrição de entrevistas, organização de documentos, pesquisa de informações, produção de versões preliminares de textos e análise de grandes bases de dados.

Mas existe uma diferença fundamental entre produzir informação e produzir jornalismo.

A apuração, a checagem, a identificação de interesses envolvidos, a entrevista, a contextualização e a responsabilidade sobre aquilo que é publicado continuam sendo atribuições que exigem julgamento humano.

Para o jornalista, portanto, a IA pode representar simultaneamente uma ameaça e uma ferramenta de produtividade.

Programação

O desenvolvimento de software também está sendo profundamente alterado.

Ferramentas de IA podem sugerir códigos, encontrar erros e acelerar determinadas etapas do desenvolvimento.

O desafio, principalmente para profissionais iniciantes, é que saber utilizar a ferramenta não elimina a necessidade de compreender aquilo que está sendo produzido.

A capacidade de verificar, testar e identificar erros tende a se tornar ainda mais importante.

Finanças e contabilidade

A análise de documentos, identificação de padrões, classificação de dados e elaboração de relatórios são atividades que podem ser aceleradas pela IA.

Ao mesmo tempo, decisões financeiras, interpretação de cenários, responsabilidade profissional e relacionamento com clientes continuam exigindo conhecimento especializado.

Serviços jurídicos

Pesquisa de documentos, análise de contratos e organização de processos estão entre as atividades que podem ser auxiliadas pela IA.

Mas a interpretação jurídica, a estratégia processual, a argumentação e a responsabilidade profissional não podem ser reduzidas simplesmente à geração automática de textos.

A IA vai acabar com empregos?

Essa talvez seja a pergunta que mais preocupa os trabalhadores.

A resposta mais responsável, neste momento, é: algumas ocupações podem perder postos de trabalho, outras serão transformadas e novas funções deverão surgir.

O que está acontecendo não parece ser simplesmente uma troca de seres humanos por máquinas. É uma mudança na composição das tarefas realizadas pelos trabalhadores.

O problema é que essa transformação não ocorrerá da mesma maneira para todos.

Profissionais que conseguem utilizar a IA para aumentar sua produtividade podem conquistar vantagem sobre aqueles que não têm acesso às mesmas ferramentas ou não receberam treinamento para utilizá-las.

E existe outro aspecto importante: a velocidade da transformação tecnológica pode ser maior do que a capacidade de adaptação do sistema educacional e dos programas de qualificação profissional.

O risco de uma nova desigualdade

A discussão sobre IA precisa, portanto, ir além da quantidade de empregos que poderão desaparecer.

É necessário perguntar:

Quem terá acesso às ferramentas?

Quem terá condições de aprender a utilizá-las?

Quem será treinado pelas empresas?

Quem poderá pagar por cursos de qualificação?

E o que acontecerá com os trabalhadores que desempenham funções mais suscetíveis à automação?

Essas questões são especialmente relevantes em um país marcado por profundas diferenças de renda e escolaridade.

Ao mesmo tempo, a IA não necessariamente aumenta todas as desigualdades.

Pesquisas experimentais recentes indicam que ferramentas de IA generativa podem melhorar o desempenho de trabalhadores com diferentes níveis educacionais e, em determinadas circunstâncias, reduzir diferenças de produtividade entre grupos. O resultado, porém, depende da maneira como a tecnologia é utilizada e do conhecimento que o trabalhador possui para aproveitá-la.

Isso coloca a educação no centro do debate.

O trabalhador do futuro precisará competir com a IA?

Talvez essa seja a pergunta errada.

O desafio poderá ser aprender a trabalhar com a IA.

O profissional que souber utilizar uma ferramenta para realizar uma tarefa em menos tempo poderá produzir mais. Mas aquele que também souber verificar os resultados, identificar erros, compreender os limites da tecnologia e tomar decisões poderá ter uma vantagem ainda maior.

A inteligência artificial pode, portanto, transformar o próprio conceito de qualificação profissional.

Não será suficiente dominar uma profissão. Será necessário compreender como a tecnologia pode ser incorporada a ela.

O que está em jogo para o Brasil?

O Brasil possui uma oportunidade econômica importante, mas também enfrenta o risco de aprofundar desigualdades caso o acesso à tecnologia e à capacitação permaneça concentrado.

Um estudo recente projeta ganhos expressivos de produtividade para setores como indústria, serviços e comércio com a adoção da IA.

Mas produtividade não significa automaticamente melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

A questão central será saber como os ganhos proporcionados pela tecnologia serão distribuídos.

Se a IA aumentar a produtividade, mas os benefícios ficarem concentrados em poucas empresas e profissionais altamente qualificados, a transformação poderá ampliar desigualdades.

Se vier acompanhada de educação, qualificação profissional, acesso tecnológico e políticas públicas, poderá representar uma oportunidade para aumentar a produtividade e criar novas possibilidades de trabalho.

A pergunta que o Brasil precisa responder

A Inteligência Artificial provavelmente não será apenas uma nova ferramenta de trabalho.

Ela poderá modificar a própria estrutura do mercado de trabalho.

Algumas profissões desaparecerão ou encolherão. Outras serão transformadas. Novas ocupações surgirão. E muitas profissões que hoje conhecemos poderão continuar existindo, mas com uma rotina completamente diferente.

Por isso, a discussão não deveria ser simplesmente “IA contra trabalhadores”.

A questão mais importante é:

Como preparar o trabalhador brasileiro para um mercado em que humanos e máquinas passarão a trabalhar cada vez mais lado a lado?

Essa é uma discussão que envolve empresas, trabalhadores, sindicatos, escolas, universidades e governos.

E talvez seja justamente essa a maior questão social provocada pela Inteligência Artificial: não apenas quantos empregos ela poderá substituir, mas quem estará preparado para ocupar os empregos que surgirão depois dela.

Nota editorial: Nesta reportagem, ferramentas de Inteligência Artificial foram utilizadas como apoio à pesquisa, organização e análise de informações. A utilização da tecnologia não substitui a apuração jornalística, a verificação das informações, a análise crítica das fontes e a responsabilidade editorial sobre o conteúdo publicado.

Com informações de pesquisa por IA

Wagner Sales – editor de conteúdo

Foto: Imagem gerada por AI

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