Literatura oral e ensino bilingue em Angola: Quando a escola aprende a escutar as suas próprias línguas

Por Enoque Sapalo Caiombo

Durante muito tempo, a escola angolana foi pensada como se o conhecimento começasse no quadro, no manual escolar e, sobretudo, em Português. Fora dela ficaram, muitas vezes, as histórias contadas pelos mais velhos, os provérbios, os cantos, as adivinhas, as fórmulas de saudação, os relatos de origem e tantas outras formas de conhecimento transmitidas oralmente nas comunidades.

O problema não está em ensinar Português. Pelo contrário, numa sociedade linguisticamente plural como a angolana, o domínio da língua portuguesa continua a ser importante. O problema começa quando ensinar Português significa, implicitamente, silenciar as línguas angolanas e tratar os conhecimentos produzidos nessas línguas como se fossem culturalmente menores.

É neste ponto que a literatura oral pode assumir uma função decisiva no ensino bilingue em Angola.

A literatura oral não é apenas entretenimento. É memória, educação, identidade e transmissão de conhecimento. Antes de existir o manual escolar, já existiam comunidades que ensinavam as suas crianças através de narrativas, provérbios, cantos, enigmas, poemas, histórias de animais e outras formas de expressão. O que hoje chamamos de “conteúdo pedagógico” foi, durante gerações, transmitido através da palavra.

O caso do Cikumbi, ritual de iniciação feminina entre os Cokwe, é particularmente elucidativo. Embora o ritual seja frequentemente analisado a partir das suas dimensões antropológica e sociocultural, nele encontramos também uma extraordinária dimensão linguística, literária e performativa.

No Cikumbi, a palavra não aparece isolada do corpo. O canto dialoga com a dança; a narrativa articula-se com o gesto; o conhecimento é transmitido através da repetição, da memória, da performance e da participação colectiva. A palavra é vivida.

É justamente essa característica que deveria interessar à escola.

A escola não precisa apenas de ensinar sobre a cultura. Pode ensinar através dela

Quando se fala em introduzir as línguas angolanas no ensino, existe frequentemente o risco de reduzir a discussão à simples tradução de conteúdos do Português para uma língua nacional.

Mas uma verdadeira educação bilingue deveria ser mais ambiciosa.

Não se trata simplesmente de dizer:

“Este texto está em Português. Agora vamos traduzi-lo para Cokwe.”

Trata-se também de perguntar:

“Que conhecimentos já existem em Cokwe e como podemos transformá-los em matéria de aprendizagem?”

Esta mudança de perspectiva é fundamental.

Um provérbio Cokwe pode ser utilizado para trabalhar interpretação textual, semântica e produção escrita. Um canto tradicional pode servir para estudar ritmo, repetição, vocabulário, oralidade e recursos estilísticos. Uma narrativa transmitida pelos anciãos pode ser transcrita, traduzida, comparada com uma narrativa em Português e posteriormente transformada numa produção escrita pelos alunos.

Assim, o aluno não entra na escola deixando a sua cultura à porta.

Entra com ela.

E isso pode fazer uma diferença enorme.

O Cikumbi como texto vivo

A experiência do Cikumbi mostra que a literatura oral não deve ser entendida como uma espécie de literatura “incompleta” por não estar originalmente escrita.

Essa visão resulta de uma concepção demasiado limitada de literatura.

A oralidade possui os seus próprios mecanismos de composição, transmissão e recepção. O texto oral pode existir através da voz, da memória, da música, do corpo, do espaço e da participação colectiva.

Paul Zumthor, ao discutir a poesia oral, chamou atenção precisamente para a dimensão performativa da palavra. O texto oral não é apenas aquilo que é dito. É também a maneira como é dito, por quem é dito, diante de quem, em que espaço e acompanhado de que gestos e movimentos.

No Cikumbi, essa dimensão é particularmente evidente.

A palavra pode ensinar regras de comportamento. O canto pode transmitir valores. A dança pode comunicar mensagens. A repetição pode facilitar a memorização. O corpo pode funcionar como suporte de significados.

Temos, portanto, uma verdadeira pedagogia da oralidade.

E talvez seja precisamente aqui que a escola angolana tenha algo a reaprender.

E se os nossos alunos estudassem literatura a partir das suas próprias comunidades?

Imagine-se uma aula de Língua Portuguesa numa escola de Saurimo.

Em vez de o professor começar exclusivamente por um texto produzido num contexto europeu ou distante da realidade sociocultural dos alunos, poderia apresentar um canto tradicional Cokwe previamente seleccionado e autorizado pela comunidade.

Primeiro, os alunos escutariam o texto em Cokwe.

Depois, identificariam palavras e expressões desconhecidas.

Em seguida, procurariam compreender o seu significado no contexto cultural.

Posteriormente, fariam uma tradução para Português.

Depois poderiam comparar as duas versões.

Que palavras existem em Cokwe que não possuem uma correspondência exacta em Português?

Que metáforas aparecem?

Como funciona a repetição?

Quem fala?

Para quem fala?

Em que contexto?

Qual é a mensagem?

Que valores são transmitidos?

Finalmente, os alunos poderiam produzir um texto em Português a partir da interpretação do material oral.

Num único exercício teríamos contacto com Cokwe, Português, literatura oral, tradução, interpretação, cultura e produção textual.

Isso é ensino bilingue com conteúdo.

O perigo de transformar a tradição em peça de museu

Existe, entretanto, uma questão que não pode ser ignorada.

Valorizar as tradições não significa congelá-las.

O Cikumbi praticado actualmente em Saurimo não é necessariamente idêntico ao Cikumbi praticado pelas gerações anteriores. A urbanização, a escolarização, as transformações familiares, as novas formas de religiosidade, os meios de comunicação e outras mudanças sociais inevitavelmente produzem adaptações.

Isso não significa que a cultura esteja necessariamente a desaparecer.

Culturas vivas transformam-se.

O problema surge quando uma sociedade deixa de transmitir às novas gerações os instrumentos linguísticos necessários para compreender a sua própria herança.

É aqui que a escola pode desempenhar um papel estratégico.

A escola não deve substituir a comunidade na transmissão do Cikumbi, muito menos transformar conhecimentos ritualísticos reservados em matéria escolar sem autorização dos seus detentores. Deve, antes, criar pontes entre o conhecimento comunitário e o conhecimento escolar.

Isso exige ética, diálogo e participação dos próprios detentores da tradição.

Os mais velhos, as instrutoras tradicionais, os artistas, os contadores de histórias e os falantes das línguas angolanas não deveriam ser vistos apenas como “fontes” que o investigador entrevista.

Podem também ser reconhecidos como agentes de produção e transmissão de conhecimento.

O bilinguismo pode ser uma ponte, não uma disputa

Há quem apresente a relação entre Português e línguas angolanas como se fosse necessariamente uma disputa: ou se valoriza o Português ou se valorizam as línguas nacionais.

Essa oposição é pouco produtiva.

Angola pode e deve formar cidadãos proficientes em Português e, simultaneamente, capazes de utilizar e valorizar as suas línguas angolanas.

O verdadeiro desafio está em construir uma educação em que as línguas tenham funções complementares.

O Português pode abrir portas para a comunicação nacional e internacional. As línguas angolanas podem fortalecer a identidade, facilitar a aprendizagem inicial, preservar conhecimentos e permitir que a escola dialogue com os contextos socioculturais dos alunos.

Não precisamos de escolher entre uma coisa e outra.

Precisamos de aprender a construir pontes.

A literatura oral pode ajudar a construir essas pontes

É precisamente por isso que a literatura oral merece um lugar mais consistente na discussão sobre educação bilingue em Angola.

Ela permite trabalhar simultaneamente língua e cultura.

Permite que o aluno passe de uma língua para outra sem sentir que está a abandonar o seu universo cultural.

Permite ainda desenvolver competências de tradução, interpretação, oralidade, leitura e escrita a partir de materiais culturalmente significativos.

Mais importante ainda: permite que a criança perceba que a língua que fala em casa também pode produzir conhecimento.

Esta talvez seja uma das mensagens pedagógicas mais poderosas que podemos transmitir.

Quando uma criança percebe que o provérbio que ouviu da avó pode ser estudado na escola, que a história contada pelo avô pode ser transformada em texto, que o canto da comunidade possui estrutura, ritmo e significado e que a sua língua pode ser utilizada para explicar, argumentar e produzir conhecimento, algo importante acontece.

A língua deixa de ser apenas língua de casa.

Passa a ser também língua de conhecimento.

De uma escola que ignora para uma escola que dialoga

O futuro do ensino bilingue em Angola não deveria consistir simplesmente em introduzir algumas palavras de línguas angolanas nos manuais escolares.

Precisamos de algo mais profundo.

Precisamos de uma escola capaz de reconhecer que o conhecimento não nasceu com a escolarização moderna e que as comunidades angolanas desenvolveram, ao longo de séculos, formas próprias de ensinar, memorizar, interpretar e transmitir saberes.

O Cikumbi é apenas um exemplo.

Há centenas de outras manifestações de literatura oral espalhadas pelo país: narrativas, provérbios, cantos, poemas, adivinhas, fórmulas cerimoniais, histórias de animais e discursos tradicionais que permanecem pouco explorados pedagogicamente.

O desafio está em documentá-los, estudá-los e, sobretudo, criar formas responsáveis de os integrar na educação.

Não para transformar a escola num espaço de reprodução acrítica da tradição.

Mas para transformar a escola num lugar de diálogo entre memória e conhecimento, tradição e modernidade, Cokwe e Português, comunidade e escola.

Uma educação verdadeiramente bilingue não deveria perguntar apenas:

“Como ensinamos Português às crianças que falam línguas angolanas?”

Deveria também perguntar:

“Como podemos ensinar Português, sem impedir que as línguas angolanas também ensinem?”

Talvez a resposta para uma parte dos nossos desafios educacionais esteja justamente aí: aprender a reconhecer que, antes de os nossos alunos chegarem à escola, eles já trazem consigo uma biblioteca.

Uma biblioteca que fala.

E que, durante demasiado tempo, a escola quase não se deu ao trabalho de escutar.

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