Portuguesismo na toponímia Cokwe: entre o enriquecimento lexical e a alienação cultural

Por Ivandro Buila
A cultura constitui o maior tesouro de um povo, pois conserva deste a sua história, valores, crenças e a maneira de enxergar o mundo, dentro de sua filosofia e códigos de vida, e a sua preservação e valorização, desde os tempos remotos, contribui para firmação de territórios, riquezas e desenvolvimento, a exemplo de Israel, nação que permaneceu por longos anos sem território, vindo a tornar-se num Estado soberano, com território próprio apenas em 1948, por força do seu legado histórico.
Em Angola, a cultura tem uma moldura bastante heterogênea, com diversidade de etnias, o que lhe garante ser um país da África Subsaariana com uma forte riqueza cultural. Assim, na cultura Bantu, o processo de atribuição de topónimos não é uma mera actividade linguística, pois um topónimo não se resume em um locativo: há aspectos extralinguísticos que são levados em conta, como a origem, valor, o contexto ou as circunstâncias da nomeação.
Todavia, durante a nossa estada na região Leste de Angola, observamos muitos dos topónimos de origem Bantu, em especial Cokwe, sendo portuguesados, razão pela qual refletimos sobre o impacto desse fenómeno na cultura Cokwe.
Topónimos como “Alto Chicapa”, “Catoca”, “Muconda” são três dos vários exemplos que temos anotados; o primeiro (alto chicapa) trata-se de um nome composto pelo adjectivo do Português “alto”, que denota altura ou elevação, e do nome em Cokwe “Cikapa”, nome de um rio, que nessa língua denota um tecido feito de sisal, geralmente usado na cintura como acessório de dança tradicional, como “Ciyanda”, que ajuda a realçar os movimentos rítmicos, especialmente em danças de roda, onde o movimento do quadril é preponderante. Sem desprimor do seu lado cultural, o nome desta localidade surge em referência a sua posição geográfica, cujo relevo é elevado em relação ao curso do rio, que tem a sua nascente o Sul e flui para o Norte, em direcção à República Democrática do Congo.
O segundo (Catoca) tem origem no verbo Cokwe “Kutoka”, que significa “perder”, atribuído a uma localidade da Lunda-Sul, que posteriormente veio a designar uma empresa diamantífera, a Sociedade Mineira de Catoca. Dados apontam que o nome provém de uma história que teve final infeliz para os autóctones da referida localidade em detrimento dos provenientes, neste caso, os portugueses.
É narrado que os autóctones se dedicavam à colheita de barro (argila) naquelas zonas, sobretudo em tempo chuvoso, que eram usados para manufactura de panelas, vasos e outros utensílios domésticos. Com a chegada dos portugueses na localidade, procuraram saber dos autóctenes a origem daqueles barros, pois haviam notado que continham matérias valiosas, como vestígios de diamantes. Após descobrirem o local onde eram retirados os barros com a ajuda dos autóctenes, os portugueses proibiram-nos de voltar a explorar aquele espaço, com apoio das autoridades locais. Daí que esses autóctenes designaram a localidade de “Kutokesa”, que em português significa “perda”, usado com o sentido de “o bem que perdemos”, que posteriormente veio a evoluir para Katoka (aportuguesado – Catoca).
Já o terceiro (Muconda) deriva de uma expressão aportuguesada do nome Cokwe “Mikonda”, que designa um ritual de iniciação feminina, que inclui práticas de corte ou manipulação dos genitais, como parte da preparação da adolescente para a vida adulta.
Tal como já referimos, os nomes na cultura Bantu carregam consigo a identidade da comunidade que os adopta. Assim, embora aportuguesados, essa realidade não é alheia aos topónimos Cokwe, pois analisando, por exemplo, as narrativas populares por trás do nome “Katoka”, nota-se que o processo de nomeação da localidade que refere está vinculado a elementos fundamentais e identitários dessa cultura: “as lendas”.
Entretanto, no sistema linguístico Cokwe, o grafema “c” não representa o fonema /k/, porém representa o som [tʃ]. Nesta perspectiva, grafar o nome “Katoka”, segundo as regras de escrita da Língua Portuguesa, é torná-lo estranho à cultura Cokwe, contribuindo, de certa maneira, para extinção do seu legado e sua história. Esse facto não só cria uma ruptura entre nomes e cultura, como também contraria o disposto no ponto 2. do artigo 7.º da Lei de Bases da Toponímia, aprovado pelo Decreto Presidencial n.º 14/16, de 12 de Setembro, que diz que “os topónimos, nas demais línguas de Angola, são escritos em conformidade com as regras de grafia da língua correspondente […].”
Por outra, analisando os valores por trás dos nomes “Cikapa” e “Mikonda”, viajamos em dois elementos fundamentais das manifestações culturais Cokwe: a dança (Cikapa) e o ritual (Mikonda). O ritual manifesta-se como elemento que determina a forma como as mulheres Cokwe pensam de si e do outro, promovendo, deste modo, o componente básico da coesão e da identidade nacional: “aprender a conviver com o outro”, conforme sugere Costa (2006). A dança, por sua vez, constitui-se como um símbolo da cultura, desempenhando um papel de distinção perante outros povos.
Tudo isso é transmitido e conservado por um único topónimo ou antropónimo, sendo, entretanto, o seu aportuguesamento um elemento consumidor dessa memória colectiva. Assim, esses topónimos manifestam-se como guardiões desses valores, e isso está em conformidade com o estatuído na alínea c) do artigo 4.º da Lei 14/16, de 12 de Setembro, Lei de Bases da Toponímia, que diz que os topónimos têm a função de “manter vivos e perpetuar os aspectos culturais de honorabilidade”. Contudo, quando adaptados para a grafia da LP, esses perdem as características de guardião a curto, médio ou a longo prazo.
Queremos, no entanto, admitir que, estando perante a fenómenos resultantes de contacto entre línguas, é possível que uma palavra da língua A (adjectivo, advérbio… até mesmo substantivo) seja adaptada ou grafada em conformidade com as normas da língua B, em caso de empréstimos, não perdendo o seu referencial, entretanto, isso não deve ser transversal aos topónimos, pelo facto desses transcenderem a mera noção de signo linguístico; esses carregam consigo crenças, histórias concretas, noção de ancestralidade, memória colectiva, que se configuram como identidade cultural, tanto é que o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) reserva um capítulo [Base I] para normas de escrita de antropónimos e topónimos originários de outras línguas e seus derivados, exemplificando “Darwin”, “darwinismo” e “Taylor”, “taylorista”, por respeito à sua autonomia relativamente à Língua Portuguesa, o que fez com que se incluísse, em 1990, as letras “k”, “w” e “y” no alfabeto da LP.
Com isso, queremos, pois, dizer que o que defendemos não deve ser visto como um problema apenas quando se trata das línguas africanas, até porque ao perder as suas propriedades originais, partindo do pressuposto de que a escrita é a representação da oralidade, perde-se também a narrativa oral e o significado cultural associado a essas localidades, enfraquecendo a transmissão desses valores tradicionais às futuras gerações.
Por fim, este texto não se limitou em trazer uma abordagem crítica sobre a escrita aportuguesada dos topónimos Cokwe, mais do que isso, este argumenta a necessidade da preservação da diversidade linguística de Angola [que inclui a Língua Portuguesa], promovendo uma narrativa de convivência justa entre as línguas e o respeito à sua autonomia linguística e cultural, sem desmerecer uma em detrimento de outra(s).
Ivandro Buila é mestrando em Língua Portuguesa, na Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto (FHUAN), Ex- Faculdade de Letras; Pesquisador no domínio da Análise Discurso e da Língua Portuguesa e suas especificidades no contexto angolano; É, actualmente, Quadro da AGT, sendo responsável na sua região pelo domínio da gestão de expedientes e assessoria de imprensa/comunicação e imagem.
