O Português Também Fala Bantu

Durante décadas, persistiu no espaço lusófono a ideia de que a língua portuguesa em África seria apenas uma réplica imperfeita do modelo europeu. Esta visão, para além de linguisticamente insustentável, ignora séculos de contacto entre o português e as línguas bantu, particularmente em Angola. O português falado em Luanda, no Huambo, em Malanje ou no Uíge não é um erro gramatical colectivo nem uma deformação da norma europeia; é o resultado histórico de encontros, conflitos, resistências e adaptações linguísticas.
As línguas não vivem isoladas nem obedecem a fronteiras políticas. Conforme demonstra Armindo Ngunga, as línguas bantu possuem sistemas gramaticais complexos e plenamente estruturados, contrariando antigas narrativas coloniais que as classificavam como dialectos inferiores ou incapazes de produzir conhecimento científico.
O português falado em Angola foi profundamente influenciado pelo contacto prolongado com línguas como o kimbundu, o kikongo, o umbundu ou o cokwe. Expressões e palavras hoje correntes no quotidiano angolano — como kota, kasule, mwamba ou kizomba — testemunham essa convivência histórica e linguística.
Mais do que empréstimos lexicais, as influências estendem-se aos níveis fonético, sintáctico e pragmático. Estudos recentes demonstram que determinadas particularidades do português angolano resultam da convivência entre diferentes sistemas linguísticos e não de desconhecimento da norma culta.
A este respeito, importa recordar a afirmação de Armindo Ngunga: “as línguas bantu são sistemas completos e funcionais de comunicação humana” (Ngunga, 2015, p. 15). Esta constatação desmonta preconceitos ainda presentes em alguns sectores académicos e sociais.
Persistir na ideia de que apenas o português europeu representa a legitimidade linguística significa ignorar um princípio elementar da Sociolinguística: toda a língua varia, adapta-se e transforma-se. Nenhuma variedade linguística possui superioridade científica sobre outra. O que frequentemente se apresenta como defesa da norma é, muitas vezes, uma tentativa de hierarquização cultural e social.
Talvez o maior erro tenha sido ensinar sucessivas gerações de angolanos a terem vergonha da língua dos seus avós e orgulho apenas da língua dos antigos colonizadores. Uma sociedade que marginaliza as suas línguas nacionais fragiliza inevitavelmente a sua memória colectiva e a sua identidade cultural. Como observam diversos investigadores, a diversidade linguística angolana não constitui um problema educativo, mas antes uma riqueza frequentemente ignorada pelas políticas públicas.
O português não chegou a Angola intacto e também não saiu dela inalterado. Angola não foi apenas receptora da língua portuguesa; foi igualmente agente da sua transformação. Reconhecer esta realidade não é um acto de nacionalismo linguístico, mas simplesmente de honestidade científica.
O português fala bantu há séculos. A verdadeira questão é saber por que razão ainda existem tantos que insistem em fingir que não ouvem essa voz.
Por: Fernando Chilumbo
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