O príncipe do bairro

Por: Jorge Eduardo Magalhães
Há trinta anos, na sua adolescência e juventude, era conhecido como o príncipe do bairro. Todas as meninas das imediações queriam namorá-lo. Fazia um enorme sucesso nas festas de rua e nas reuniões nas casas da vizinhança. Namorou durante muito tempo a Aninha, a princesa do bairro e, para muitos, formavam o casal perfeito. Na escola, que ficava no quarteirão, era o líder da turma e sempre comandava as partidas de futebol, levando a torcida feminina ao delírio.
Não se casara com a Aninha. Casou-se com uma outra menina de sua rua e construiu sua casa nos fundos dos sogros. Começou a trabalhar na padaria improvisada de propriedade de seu sogro, que ficava na frente da casa. Acabou engordando e ficando calvo. A Aninha, sua ex-namorada, morava na rua paralela. Sempre a via muito gorda, casada com um jogador compulsivo e mãe de quatro filhos.
O bairro ficara violento, abandonado. Não se via mais cadeiras na calçada. Estava farto de trabalhar sol a sol no comércio de seu sogro. Devia ter terminado seus estudos, mas preferiu se dedicar a outras coisas. Tentava não pensar na sua vida que havia parado no tempo.
Foi interrompido de suas reflexões por um cliente que pedia meia dúzia de pães e trezentos gramas de mortadela. Olhou bem e reconheceu: era o Alípio, o mais destacado da turma, estranho, ninguém queria amizade com ele, nem as meninas namorá-lo. Deu um sorriso, cumprimentou-o. Alípio, o estranho nerd da turma, estava muito mudado, com uma boa aparência e lhe apresentou sua esposa, um bela mulher. Parecia estar bem de situação. Alípio disse que havia ficado um tempo fora do país e havia voltado àquela semana e aproveitou para visitar os pais. Despediu-se e saiu com a mercadoria.
Talvez Alípio tenha ido de propósito ao seu estabelecimento para humilhá-lo, para lhe mostrar o quanto estava bem. Não interessava, pois seria sempre o príncipe do bairro.
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