Consciência Nativa e Consciência Ocidental na Sociolinguística

*Por Fernando Chilumbo

A Linguística Geral consolidou-se, ao longo dos séculos, sob a influência da tradição científica ocidental, cujos modelos teóricos passaram a orientar a descrição e a interpretação das línguas do mundo. Embora essa tradição tenha contribuído decisivamente para o desenvolvimento da ciência linguística, também produziu uma hegemonia epistemológica que, em muitos contextos, invisibilizou os saberes linguísticos das comunidades nativas. A Sociolinguística contemporânea desafia essa herança ao reconhecer que a língua não é apenas um sistema formal, mas um fenómeno profundamente enraizado nas experiências sociais, culturais e históricas dos seus falantes.

Como afirma Ngũgĩ wa Thiong’o (1986), «Language carries culture», isto é, a língua transporta a memória colectiva, os valores, as formas de pensamento e a identidade de um povo. Nesta perspectiva, reduzir a língua a um objecto exclusivamente estrutural significa ignorar a dimensão humana que lhe dá existência. A consciência nativa deixa, assim, de ser um elemento periférico para assumir um papel central na produção do conhecimento linguístico.

Edward Sapir (1921) defendia que «Language is a guide to social reality», salientando que a compreensão da língua exige igualmente a compreensão da sociedade que a produz. Esta visão constitui um dos pilares da Sociolinguística, disciplina que demonstra que toda a prática linguística é inseparável das relações de poder, da identidade e da cultura. Assim, descrever uma língua sem ouvir os seus falantes representa uma limitação epistemológica e metodológica.

No contexto angolano, onde coexistem o português e diversas línguas bantu, esta problemática assume especial relevância. A persistência de modelos analíticos exclusivamente ocidentais tende, por vezes, a interpretar as especificidades das línguas nacionais como desvios relativamente ao português europeu, quando, na realidade, reflectem sistemas linguísticos autónomos, historicamente consolidados e culturalmente legítimos. A consciência nativa permite compreender essas especificidades a partir das categorias interpretativas das próprias comunidades, promovendo uma leitura mais rigorosa, inclusiva e cientificamente equilibrada.

Boaventura de Sousa Santos (2014) sustenta que não existe justiça social sem justiça cognitiva. Esta ideia pode ser estendida à Linguística: não haverá verdadeira justiça linguística enquanto apenas uma tradição epistemológica determinar os critérios legítimos para produzir conhecimento sobre as línguas. Descolonizar a Linguística Geral não significa rejeitar o legado científico ocidental, mas reconhecer que a pluralidade linguística exige igualmente pluralidade epistemológica.

A Sociolinguística do século XXI é chamada a ultrapassar a dicotomia entre centro e periferia, ciência e tradição, investigador e comunidade. O futuro da Linguística Geral dependerá da sua capacidade para integrar a consciência nativa como categoria científica legítima, transformando os falantes em protagonistas da produção do conhecimento e não apenas em objectos de observação. Só assim será possível construir uma ciência linguística verdadeiramente universal, plural e epistemicamente democrática.

*Fernando Chindele Capolo Chilumbo é estudante de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa na Universidade Agostinho Neto (Angola), professor do Ensino Primário e investigador em formação nas áreas de Sociolinguística, Políticas Linguísticas e contacto entre o português e as línguas bantu.

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