Entre o caminho e a mata: memórias de resistência no Vale do Paraíba

Há cidades que parecem tranquilas apenas porque aprenderam a esconder o que as formou. Lorena é uma delas. Quem a observa hoje, com seu ritmo cotidiano e sua posição discreta no Vale do Paraíba, talvez não perceba que o chão por onde se anda já foi atravessado por fluxos intensos de dor, fuga e reinvenção.

No tempo em que o café estruturava a economia e a escravidão organizava a vida social, Lorena ocupava posição estratégica entre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Onde havia circulação e controle, também havia brechas.

Dizem  e aqui a história se mistura com a memória oral  que áreas como o antigo Bairro do Ronco e o entorno do Campinho abrigaram esconderijos naturais usados por pessoas escravizadas em fuga. Esses espaços eram chamados de mocambos: não apenas refúgios, mas formas de reorganização da vida fora da ordem escravista.

Esses territórios podem ser compreendidos como expressão ativa de resistência coletiva, e não como simples fuga. O que se formava nessas áreas era uma contestação concreta à ordem estabelecida.

A geografia, marcada por relevo acidentado e vegetação densa, favorecia essas experiências de autonomia relativa, ainda que precária.

Em Ubatuba, comunidades como Caçandoca, Camburi e Picinguaba preservam continuidades históricas dessa presença negra no território. Em Guaratinguetá, o Quilombo de Tamandaré mantém práticas como o jongo, expressão cultural de matriz africana.

A identidade, nesse contexto, é um processo histórico e cultural em constante transformação, enquanto as formas de resistência escrava no Brasil se revelam múltiplas e complexas. Ao mesmo tempo, o racismo estrutural ajuda a compreender os apagamentos históricos que contribuíram para a ausência de reconhecimento formal de certas territorialidades negras.

Assim, olhar para Lorena é também confrontar aquilo que não foi plenamente registrado, mas permaneceu como memória subterrânea do território.

 

Denilson Costa

 

Bibliografia

 

COSTA, Denilson. O Brasil tem cor: o racismo disfarçado. São Paulo: Verbo, 2025.

 

MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. São Paulo: Anita Garibaldi, 1981.

 

MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988.

 

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

 

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Ática, 2009.

 

REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

 

REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

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