A Cor Púrpura

O Brasil gosta de se contar como um país miscigenado. Fica bonito no discurso. Quase poético. Mas raramente se pergunta quem decidiu essa mistura — e por quê.
No dia a dia, a resposta aparece sem esforço. Está nos ônibus cheios, nos trabalhos mais duros, nos olhares desviados. A cor não é detalhe. Nunca foi.
Houve um tempo em que isso virou teoria. Chamaram de eugenia. Um nome técnico para uma ideia simples e cruel: o país só avançaria se fosse mais branco. E, a partir daí, decisões foram tomadas. Incentivaram imigrações, apagaram histórias, empurraram pessoas.
No Rio de Janeiro, derrubaram cortiços, expulsaram famílias e chamaram isso de modernização. Queriam uma cidade parecida com Paris — limpa, organizada, europeia. O que não cabia nesse ideal foi jogado para longe. Assim, sem cerimônia, nasceram as favelas.
O tempo passou, mas certas ideias não foram embora. Só ficaram mais discretas.
Hoje, a lei diz que todos são iguais. Que o racismo é crime. Mas a prática insiste em desmentir o papel. A história negra, por exemplo, é obrigatória nas escolas — pelo menos na teoria. Na sala de aula, muitas vezes, vira rodapé.
E assim o país segue: dizendo uma coisa, vivendo outra.
Existe um cansaço silencioso em quem precisa provar, todos os dias, que merece estar onde está. Um desgaste que não aparece em estatísticas, mas que molda vidas inteiras.
As mulheres negras sabem bem disso. Carregam não só o peso do machismo, mas também o do racismo. Vivem numa interseção onde a desigualdade não soma — multiplica.
Enquanto isso, seguimos repetindo que somos iguais.
Talvez sejamos, no papel.
Na vida, ainda não.
Porque o passado não ficou para trás. Ele apenas mudou de forma. Saiu do tronco, entrou nas estruturas, nas ausências, nas oportunidades negadas.
E continua ali.
Disfarçado.
Mas presente.
Denilson Costa
