Advogado da JBS é alvo de indiciamento por corrupção passiva pela Polícia Federal

O relatório final da Operação Ultima Ratio não apenas destaca o indiciamento sem precedentes de sete desembargadores no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), mas também revela a figura central do advogado Rodrigo Gonçalves Pimentel, que é filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel. Este advogado é identificado pela Polícia Federal (PF) como um intermediário nas transações envolvendo a venda de decisões judiciais.

Pimentel é considerado uma peça-chave na ligação entre os desembargadores e aqueles que adquiriram seus serviços, especialmente a JBS, a maior companhia do setor de proteína animal global. De acordo com o delegado Marcos André Araújo Damato, mais de R$ 20 milhões foram movimentados em pagamentos para o advogado, quantia que ele não soube justificar adequadamente, apesar de explicar sua relação com a empresa.

O delegado relata que, embora Rodrigo tenha fornecido uma resposta escrita sobre as transferências financeiras realizadas pela JBS para seu escritório, denominada Pimentel & Mochi Advogados Associados, suas justificativas foram consideradas insuficientes. Ele apenas afirmou que os valores se referiam a serviços jurídicos prestados.

A PF também destacou que o escritório de Pimentel alegou que os recursos recebidos da JBS não estavam associados a qualquer atividade ilegal. No entanto, o advogado expressou em nota à Polícia Federal que a divulgação dos montantes recebidos prejudicou sua imagem pública, argumentando que prestou serviços legais adequados e pagou os impostos correspondentes.

O montante exato recebido pelo escritório de Rodrigo Pimentel da JBS S.A. foi registrado em R$ 20.857.199,71. Durante as investigações, Damato observou um aumento patrimonial incomum na vida financeira do advogado: seus rendimentos anuais saltaram de R$ 52.500,00 em 2017 para R$ 3.310.068,00 em 2018 e posteriormente para R$ 9.226.989,95 em 2022 — um crescimento superior a 174 vezes em seis anos.

A JBS se pronunciou afirmando que o escritório Pimentel & Mochi Advogados Associados atuou em diversas ações relacionadas à empresa e recebeu honorários por seus serviços assim como qualquer outro escritório jurídico.

O INDICIAMENTO

Rodrigo Pimentel foi indiciado por corrupção passiva pela PF após sua empresa Ipê Assessoria Consultoria receber R$ 275 mil da advogada Emmanuelle Alves Ferreira da Silva em 20 de junho de 2018. Emmanuelle é casada com Aldo Ferreira da Silva Júnior, um ex-juiz afastado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) devido a investigações sobre venda de sentenças e corrupção.

Na mesma data em que Emmanuelle transferiu a quantia mencionada para Rodrigo Pimentel, ela recebeu mais de R$ 5 milhões resultantes de uma ordem judicial emitida pelos magistrados Paulo Afonso e Julio Roberto Siqueira Cardoso — recursos relacionados a uma fraude judicial contra um aposentado.

O relatório da Operação Ultima Ratio considerou as explicações fornecidas por Rodrigo quanto aos R$ 275 mil como fraudulentas. Ele e Fabio Leandro, filho do desembargador Paschoal Carmelo Leandro, estariam envolvidos na intermediação da venda das decisões judiciais emitidas por Julio Cardoso e Paulo Afonso.

A investigação ainda revelou que Rodrigo Pimentel e sua esposa, Silvia Helena Oliveira Rocha Pimentel, firmaram um “Contrato Particular de Cessão de Posse e Direitos sobre Bem Imóvel” com Emmanuelle Alves Ferreira da Silva no dia seguinte à transferência dos R$ 275 mil. O contrato envolvia um terreno avaliado em R$ 1 milhão negociado por apenas R$ 400 mil.

MÃOZINHA DO PAI

A PF encontrou indícios de que Sideni Soncini Pimentel pode ter utilizado sua posição como desembargador para beneficiar seu filho Rodrigo. Mensagens no celular do desembargador sugerem que ele teria enviado informações sobre um processo ao juiz Milton Zanutto, onde a empresa Meop & Phop Holding e Administração Ltda., pertencente a Rodrigo, era parte interessada — indicando uma possível tentativa de manipulação do resultado judicial.

Além disso, há evidências de confusão patrimonial entre pai e filho. Um comprovante bancário mostra uma transferência de R$ 220 mil feita por Rodrigo para Sideni, levantando questionamentos sobre a separação das finanças entre ambos. A investigação ainda detectou que em 2017 não havia registros financeiros nos dados bancários de Rodrigo que justificassem as notas fiscais emitidas ao pai — sugerindo uma potencial mistura ilegal dos bens dos dois.

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