Itá uba té

Dizem que, no tupi antigo, tudo se diz como se vê. A palavra nasce da terra, do rio, do corpo que pisa o chão e aprende com ele. Não há metáfora sem raiz: a pedra é pedra, a água é água, a árvore é árvore e o mundo respira nessas junções.
Antes do ouro, havia o caminho.
Os rios corriam sem dono, e cada nome era um gesto de escuta. A terra não precisava ser possuída para ser conhecida. Era parente, não riqueza.
Mas então vieram os homens do ouro.
Trouxeram outra língua uma língua que não nomeava, tomava. Viram no brilho amarelo mais do que pedra: viram poder. E onde o olhar antigo dizia apenas itá, pedra, eles disseram preço. Disseram lucro. Disseram domínio.
E com o ouro, trouxeram também os corpos.
Corpos negros, arrancados de longe, atravessados pelo mar, lançados à terra como ferramenta. Corpos indígenas, já enraizados ali, violentados, deslocados, quebrados. Uns e outros forçados ao mesmo chão, mas não ao mesmo esquecimento.
Se a língua da terra tentasse nomear aquele tempo, faltariam palavras.
Porque o que se via já não cabia no que se podia dizer.
O ouro, talvez, fosse chamado de pedra amarela. Algo como itá tingido pelo sol. Mas o que brilhava de verdade não era a pedra era o suor. Não era o metal era a vida sendo gasta.
O verdadeiro eté não estava no ouro.
Estava no peso dos corpos.
No braço que cava. No peito que resiste. Na memória que insiste em não morrer, mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-la.
Talvez itá uba té nunca tenha existido como palavra.
Mas poderia existir como denúncia.
Pedra, matéria, verdade.
A pedra que se arranca da terra.
A matéria que se transforma em riqueza.
A verdade que se tenta enterrar junto com quem a sustenta.
E ainda assim, ela fica.
Nos nomes que resistem.
Nos rios que lembram.
Nos corpos que, mesmo feridos, seguem dizendo de outras formas, em outras línguas aquilo que nunca deixou de ser verdade.
Denilson Costa
