Por que Brasília escolhe lembrar (e esquecer) certas figuras políticas?

Nos bastidores de Brasília, a política raramente é sobre o que se diz em público e quase sempre sobre o que se reorganiza em silêncio. A reemergência de Eduardo Cunha no debate político e a permanência de Jair Bolsonaro como força eleitoral não são movimentos espontâneos. São, em grande medida, fruto de rearranjos calculados.
Cunha nunca deixou completamente o jogo. Mesmo fora dos holofotes, manteve interlocução com setores do Congresso, especialmente com parlamentares ligados ao chamado Centrão grupo que opera menos por alinhamento ideológico e mais por pragmatismo político. Sua eventual reabilitação pública não acontece por acaso: ela responde a uma demanda por operadores experientes, capazes de transitar entre diferentes forças e destravar negociações.
Nos corredores do poder, Cunha ainda é visto como alguém que entende o “manual não escrito” da política brasileira: controle de pauta, articulação de maioria e gestão de crises institucionais. Sua fala recente sobre o impeachment de Dilma Rousseff não é apenas revisão histórica é também um recado. Um reposicionamento.
Do outro lado, Bolsonaro segue como peça central de um campo político que, apesar das divisões internas, ainda depende fortemente de sua capacidade de mobilização. Nos bastidores, aliados trabalham para manter sua relevância, seja por meio de presença nas pesquisas, seja pela influência indireta em candidaturas locais e nacionais.
Há, inclusive, uma disputa silenciosa dentro desse campo: quem herda o capital político bolsonarista em cenários de impedimento ou desgaste maior do ex-presidente. Governadores, parlamentares e lideranças emergentes se movimentam, mas ainda orbitam em torno dele.
O ponto de convergência entre esses dois movimentos está no pragmatismo. Em Brasília, memória política é frequentemente subordinada à viabilidade eleitoral e à capacidade de articulação. Figuras que já foram consideradas inviáveis voltam a ser úteis e, portanto, reinseridas.
Esse processo não ocorre sem resistência, mas encontra terreno fértil em um sistema político fragmentado, onde alianças são voláteis e a governabilidade depende de negociações constantes.
O resultado é um cenário em que o passado pesa, mas não determina. Ele é reavaliado, recontextualizado e, quando conveniente, relativizado.
Mais do que um esquecimento coletivo, o que se vê é uma reconfiguração estratégica da memória. E, nos bastidores, essa escolha costuma ser menos sobre o que aconteceu e mais sobre o que ainda pode ser útil.
O que une esses dois movimentos é menos ideologia e mais comportamento do eleitorado. O Brasil mostra, de novo, que escândalos têm prazo de validade e que a rejeição política pode ser reversível, dependendo do contexto.
Há também um fator estrutural: a velocidade da informação. Em um ambiente dominado por redes sociais e disputas de narrativas, fatos complexos são simplificados e, muitas vezes, reconfigurados. A memória pública deixa de ser linear e passa a ser disputada.
O resultado é um cenário em que personagens antes desgastados encontram espaço para retorno. Não porque o passado desapareceu, mas porque ele foi reorganizado.
No fim, a questão não é se o Brasil esquece. É como e por que escolhe lembrar.
Com informações de Diego Gonzaga – estagiário de jornalismo
Wagner Sales – editor de conteúdo
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