A Serra Nunca Esqueceu

Às vezes, me deparo olhando para a Serra da Mantiqueira da Casa Afro. Sempre observo o final da tarde, quando o sol se despede lentamente atrás das montanhas e pinta o céu com cores que parecem conversar com o tempo.
Naquele silêncio, a serra parece falar.
Não com palavras, mas com memórias.
Enquanto muitos enxergam apenas a beleza da paisagem, eu imagino quantas histórias caminharam por aqueles morros antes de nós. Quantos homens e mulheres negros atravessaram aquelas trilhas carregando não apenas ferramentas e sacas de café, mas também a esperança de um dia viverem em liberdade.
No século XIX, Lorena cresceu impulsionada pela riqueza do café. O progresso tinha endereço, nome e sobrenome. Mas sua verdadeira sustentação vinha de milhares de pessoas escravizadas, cujos rostos raramente aparecem nos livros de História.
Em 1833, Lorena registrava 1.187 pessoas escravizadas. Um número que revela muito mais do que estatísticas; revela uma sociedade construída sobre o sofrimento de vidas transformadas em propriedade.
O medo da liberdade era tão grande que, em 1832, a Câmara Municipal proibiu reuniões de negros para festas, danças e jogos. A punição era o açoite. Não queriam apenas controlar corpos. Queriam impedir que um povo preservasse sua cultura, sua identidade e sua força coletiva.
Ao olhar para a Serra da Mantiqueira, penso também na antiga Freguesia de São Miguel do Piquete. Antes de se tornar Vila Vieira do Piquete e conquistar sua emancipação, em 1891, aquela região foi moldada por trabalhadores negros, escravizados e libertos, que abriram caminhos, cultivaram a terra e sustentaram a economia serrana.
Talvez seja por isso que gosto tanto de contemplar o fim da tarde.
Porque, quando o sol desaparece atrás da serra, tenho a impressão de que ele ilumina, por alguns instantes, aqueles que a história insistiu em deixar na sombra.
As montanhas permanecem no mesmo lugar.
Elas viram o café enriquecer fazendas.
Viram correntes.
Ouviram cantos proibidos.
Presenciaram lágrimas silenciosas e sonhos interrompidos.
A serra nunca esqueceu.
Quem esqueceu fomos nós.
E talvez a nossa maior responsabilidade não seja apenas contar a história de Lorena e de Piquete, mas devolver o nome, a dignidade e a memória daqueles que fizeram dessas terras um lugar possível.
Porque um povo que aprende a ouvir a voz de suas montanhas também aprende a respeitar aqueles que caminharam por elas antes de nós.
Denilson Costa
