Falar “bom português” significa necessariamente falar português europeu?

Por Enoque Sapalo Caiombo
Durante muito tempo, em Angola, dizer que alguém “fala bem português” pareceu significar, quase automaticamente, que essa pessoa fala como um português. A pronúncia, determinadas palavras, construções gramaticais e até formas de tratamento utilizadas em Portugal são frequentemente tomadas como referência para avaliar a qualidade da língua portuguesa falada em Angola. Mas será que falar bem português significa, necessariamente, falar português europeu?
A resposta, do ponto de vista linguístico, é não.
Esta questão merece ser discutida porque envolve muito mais do que a escolha de palavras ou a forma de pronunciar determinados sons. Envolve identidade, história, educação, poder, preconceito e a própria maneira como uma sociedade compreende a sua língua.
O português é hoje uma língua pluricêntrica, isto é, uma língua que possui diferentes centros de produção, normalização e desenvolvimento. Não existe apenas uma maneira legítima de falar português. O português europeu é uma das suas variedades, assim como o português brasileiro, o português angolano, o português moçambicano e outras variedades existentes em diferentes espaços de língua portuguesa.
Isso significa que a existência de diferenças entre o português falado em Angola e o português falado em Portugal não constitui, por si só, uma deficiência linguística.
Entre “falar correctamente” e “falar como os portugueses”
É importante separar duas ideias que muitas vezes são confundidas: correcção linguística e semelhança com uma determinada variedade.
Uma pessoa pode utilizar uma variedade do português diferente daquela que é predominante em Portugal e, ainda assim, comunicar com clareza, dominar estruturas gramaticais, possuir amplo vocabulário e adequar o seu discurso à situação comunicativa.
Falar português europeu é falar uma determinada variedade histórica e social do português. Não é falar “mais português” do que os outros falantes.
Da mesma forma, um angolano não precisa de abandonar marcas da sua realidade linguística para demonstrar competência no uso da língua portuguesa.
A questão torna-se ainda mais complexa porque o português em Angola se desenvolveu num contexto de intenso contacto com diversas línguas angolanas, entre elas o Umbundu, o Cokwe, o Kimbundu, o Kikongo, o Olunyaneka, o Oshikwanyama e várias outras. Esse contacto linguístico não é um acidente. É parte da história social e linguística do país.
O português falado em Angola é, portanto, resultado de uma história específica, marcada pela colonização, pela independência, pela urbanização, pela mobilidade populacional, pelo multilinguismo e pelo contacto permanente entre diferentes sistemas linguísticos.
Angola não fala apenas uma língua
Há outro aspecto que não pode ser ignorado. Angola é um país linguisticamente diverso.
O português ocupa uma posição oficial e de enorme importância na administração, na educação, nos meios de comunicação, na ciência e na vida pública. Ao mesmo tempo, milhões de angolanos possuem contacto quotidiano com diferentes línguas angolanas.
Essa realidade cria situações de bilinguismo e plurilinguismo que influenciam inevitavelmente a forma como os falantes utilizam o português.
O resultado pode ser observado no léxico, na pronúncia, na construção de determinadas frases, nos processos de criação vocabular e nas estratégias utilizadas pelos falantes para expressar conceitos ligados à sua experiência social e cultural.
Não se trata simplesmente de “misturar línguas” por desconhecimento. Em muitos casos, trata-se de um fenómeno natural de contacto linguístico.
As línguas estão permanentemente em contacto e os seus falantes criam, adaptam, incorporam e transformam formas de expressão. A língua portuguesa em Angola não está fora desse processo.
O problema do preconceito linguístico
O problema surge quando as diferenças são imediatamente classificadas como erros.
É frequente ouvir expressões como “os angolanos falam mal português”, “essa palavra não existe em português” ou “isso é português errado”. Algumas dessas avaliações podem até estar relacionadas com situações em que determinado uso não corresponde à norma-padrão adoptada para um contexto específico. Mas transformar todas as diferenças linguísticas em sinais de ignorância é uma atitude que a Linguística não sustenta.
Uma língua possui variação.
As pessoas não falam exactamente da mesma maneira. A língua varia conforme a região, a idade, o grupo social, o nível de escolaridade, a profissão, a situação comunicativa e muitos outros factores.
Até dentro de Portugal existem diferentes formas de falar português. O mesmo acontece no Brasil, em Angola, em Moçambique e em qualquer outra comunidade linguística.
Por isso, quando alguém afirma que determinada maneira de falar é “feia”, “errada” ou “inculta”, é necessário perguntar: errada em relação a quê? A qual norma? Em qual contexto? Com base em qual variedade?
É justamente aqui que entra o conceito de preconceito linguístico.
O preconceito linguístico ocorre quando determinadas formas de falar são avaliadas negativamente não apenas pelas suas características linguísticas, mas pelo estatuto social atribuído aos seus falantes.
Uma pessoa pode ser considerada “menos instruída” simplesmente porque pronuncia uma palavra de determinada maneira ou porque utiliza uma construção frequente na sua comunidade linguística.
O problema não está apenas na língua. Está na forma como avaliamos quem fala.
A norma-padrão continua a ser importante
Defender a diversidade linguística não significa afirmar que todas as formas linguísticas são adequadas em todas as situações.
A escola tem a responsabilidade de ensinar a norma-padrão. Um estudante precisa de conhecer as formas de expressão exigidas em determinados contextos académicos, administrativos e profissionais. Um investigador precisa de dominar a escrita científica. Um jornalista precisa de saber adequar a linguagem ao género jornalístico. Um funcionário público precisa de conhecer os padrões linguísticos utilizados na comunicação institucional.
Isso é competência comunicativa.
O problema começa quando confundimos o domínio da norma-padrão com a obrigação de reproduzir exclusivamente o português europeu.
Um angolano pode e deve dominar a norma culta da língua portuguesa sem precisar de apagar a sua identidade linguística.
Da mesma maneira, conhecer a norma-padrão não significa que o falante deva utilizar a mesma pronúncia, o mesmo vocabulário ou as mesmas construções de um falante português.
A competência linguística está também na capacidade de reconhecer contextos e adaptar o uso da língua às diferentes situações.
O português de Angola merece ser estudado
Uma das tarefas que se colocam aos linguistas angolanos é precisamente estudar de forma sistemática o português utilizado no país.
Não basta afirmar que existe um “português angolano”. É necessário descrevê-lo.
É preciso investigar a sua fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática e léxico. É necessário identificar fenómenos recorrentes, compreender a sua origem, verificar a sua distribuição social e geográfica e analisar a relação que estabelecem com as línguas angolanas.
A investigação linguística permitirá distinguir fenómenos ocasionais de fenómenos sistemáticos e usos individuais de características que já apresentam maior estabilidade na comunidade de falantes.
Esse trabalho é fundamental para que Angola deixe de olhar para a sua própria realidade linguística apenas através de modelos produzidos fora do país.
Estudar o português em Angola não significa rejeitar o português europeu. Significa reconhecer que a língua portuguesa possui diferentes realidades e que Angola também participa na construção histórica dessa língua.
A escola e os professores têm um papel fundamental
A educação linguística precisa de encontrar um equilíbrio.
Por um lado, a escola deve proporcionar aos estudantes o domínio da norma-padrão, porque isso amplia as suas possibilidades de participação académica, profissional e social.
Por outro, a escola não deve transformar as línguas maternas dos alunos nem as variedades do português que eles trazem de casa em motivo de vergonha.
Uma criança que chega à escola falando uma língua angolana ou uma variedade do português influenciada pelo seu contexto linguístico não chega “sem língua”. Ela chega com um repertório linguístico.
O papel da escola deve ser ampliar esse repertório.
Ensinar português não deveria significar dizer ao aluno que a língua que aprendeu no seio da família é inferior. Deveria significar oferecer-lhe novas possibilidades de comunicação, sem destruir as que já possui.
É igualmente importante que os professores tenham formação linguística suficiente para compreender a diferença entre erro, variação, mudança linguística e interferência decorrente do contacto entre línguas.
O futuro do português em Angola
O português continuará a ocupar um lugar central na sociedade angolana. A questão não é saber se Angola deve falar português ou deixar de falar português. Essa oposição seria artificial e pouco produtiva.
A verdadeira questão é saber que português se está a construir em Angola e qual será o seu lugar no futuro da língua portuguesa.
À medida que novas gerações de angolanos utilizam o português na escola, nas universidades, na administração pública, na literatura, na música, no jornalismo, na televisão e nas redes sociais, a variedade angolana continuará a desenvolver-se.
As redes sociais aceleram ainda mais esse processo. Jovens angolanos criam novas expressões, adaptam palavras, combinam recursos linguísticos e produzem formas de comunicação que circulam rapidamente entre diferentes grupos sociais.
Algumas desaparecerão. Outras permanecerão. Algumas poderão tornar-se características mais estáveis do português utilizado em Angola.
A língua muda porque os seus falantes mudam.
Mais do que falar português, precisamos de compreender o português que falamos
A discussão sobre o “bom português” deveria, portanto, abandonar a ideia simplista de que existe uma única forma legítima de falar português.
Há normas, há variedades, há contextos e há diferentes graus de formalidade.
Um estudante numa universidade pode precisar de utilizar uma linguagem diferente daquela que utiliza com os amigos. Um jornalista pode adoptar determinadas escolhas linguísticas numa reportagem e outras numa conversa informal. Um investigador pode escrever de acordo com convenções académicas sem que isso signifique falar ou escrever exactamente como um investigador português.
A língua portuguesa pertence também aos angolanos.
Isso não significa que Angola possa estabelecer arbitrariamente uma norma linguística de um dia para o outro. Uma norma resulta de processos sociais, históricos, educativos e institucionais complexos. Mas significa que os fenómenos linguísticos produzidos e estabilizados na comunidade angolana merecem ser observados, estudados e discutidos com seriedade.
Falar “bom português”, portanto, não significa necessariamente falar português europeu.
Significa, antes de tudo, possuir competência para utilizar a língua de forma adequada, clara e eficaz nos diferentes contextos de comunicação. Significa conhecer as convenções linguísticas exigidas em situações formais, mas também compreender que a língua possui variação e que essa variação não é sinónimo de inferioridade.
Em Angola, precisamos de ensinar português sem ensinar os nossos cidadãos a terem vergonha da maneira como falam.
Precisamos de formar falantes linguisticamente competentes, mas também linguisticamente conscientes.
Porque uma língua não é apenas um conjunto de regras. É também memória, identidade, história e experiência colectiva.
E o português que se fala em Angola, com as suas particularidades e transformações, é igualmente parte da história contemporânea da língua portuguesa.
Enoque Sapalo Caiombo
Docente da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto
