Línguas nacionais em Angola: entre a promessa de valorização e a realidade institucional

*Por Fernando Chilumbo
Angola é um país de grande diversidade linguística. Ao lado do português, língua oficial do Estado, convivem várias línguas nacionais de origem bantu que carregam histórias, memórias, conhecimentos e formas próprias de interpretar o mundo. São línguas que atravessaram gerações e continuam a desempenhar um papel fundamental na vida cultural de milhões de angolanos.
Desde a independência nacional, em 1975, a valorização das línguas nacionais tem sido uma presença constante nos discursos oficiais. Elas são frequentemente apresentadas como património cultural, símbolos da identidade angolana e elementos importantes para a preservação da nossa memória coletiva. No entanto, permanece uma questão que merece ser discutida com seriedade: as línguas nacionais estão realmente a ser valorizadas ou continuam, em grande medida, limitadas ao campo dos discursos políticos?
A questão não significa negar a importância do português. Pelo contrário, o português desempenha um papel fundamental como língua de comunicação entre diferentes grupos linguísticos e como instrumento de inserção de Angola no espaço internacional. O problema está na desigualdade de espaços ocupados pelas diferentes línguas dentro da sociedade.
Enquanto o português permanece como a principal língua da administração pública, do ensino formal, da produção científica e dos documentos oficiais, muitas línguas nacionais continuam afastadas desses espaços de poder e decisão. Assim, surge uma contradição: reconhecemos as nossas línguas como parte da identidade nacional, mas nem sempre criamos condições para que elas participem plenamente na vida institucional do país.
A sociolinguística mostra que as línguas não possuem apenas uma função comunicativa; elas também estão relacionadas com poder, prestígio e reconhecimento social. O linguista Pierre Bourdieu (1991) demonstra que algumas línguas adquirem maior valor porque são legitimadas pelas instituições. Dessa forma, a posição dominante de uma língua não depende apenas do número de falantes, mas também do lugar que ela ocupa nas estruturas sociais.
No caso angolano, esta reflexão leva-nos a questionar: de que forma uma língua pode ser considerada verdadeiramente valorizada se continua com pouca presença nos espaços onde são tomadas decisões que influenciam a vida dos cidadãos?
A valorização das línguas nacionais não deve limitar-se a celebrações culturais, festivais ou discursos institucionais. Uma política linguística verdadeiramente inclusiva exige medidas concretas: maior presença dessas línguas na educação, incentivo à investigação científica, produção de materiais didáticos, utilização em determinados serviços públicos e criação de condições para que os seus falantes tenham maior participação social.
Segundo Bernard Spolsky (2004), uma política linguística não se mede apenas pelas declarações oficiais, mas pelas práticas reais das instituições e pela forma como as sociedades atribuem valor às diferentes línguas. Por isso, o desafio de Angola não é apenas reconhecer a existência das línguas nacionais, mas garantir que esse reconhecimento produza efeitos concretos.
O futuro linguístico de Angola não deve ser construído numa lógica de substituição do português pelas línguas nacionais. O verdadeiro desafio é criar uma convivência equilibrada, onde o português continue a cumprir a sua função nacional e internacional, mas onde as línguas angolanas tenham também espaço para contribuir na educação, na ciência, na administração e na construção do conhecimento.
A pergunta que permanece é inquietante: estamos perante uma verdadeira política de valorização das línguas nacionais ou diante de uma promessa que ainda espera pela sua concretização institucional?
Discutir esta questão não é apenas falar sobre línguas. É falar sobre identidade, cidadania, inclusão e sobre o tipo de Angola que queremos construir: uma Angola onde a diversidade linguística seja apenas celebrada ou uma Angola onde essa diversidade tenha efetivamente voz.
*Fernando Chindele Capolo Chilumbo é estudante de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa na Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto. Professor e pesquisador em formação, dedica-se aos estudos da sociolinguística, política linguística e contacto entre o português e as línguas bantu angolanas.
