O fracasso escolar começa na língua? Um olhar sobre a exclusão linguística das crianças nas zonas rurais de Angola

Por Fernando Chilumbo

O debate sobre o fracasso escolar em Angola tem privilegiado frequentemente factores económicos, infraestruturais e administrativos, deixando em segundo plano uma dimensão decisiva: a língua através da qual a criança aprende, é avaliada e constrói a sua relação com o conhecimento. Este texto defende que, em muitos contextos rurais angolanos, o insucesso escolar não resulta apenas da ausência de competências cognitivas ou pedagógicas, mas também de um modelo educativo que frequentemente transforma a diferença linguística em desigualdade escolar. A partir da perspectiva da sociolinguística e da educação bilíngue, argumenta-se que ignorar as línguas maternas das crianças significa desperdiçar recursos cognitivos, culturais e identitários fundamentais para o processo educativo.

Quando uma criança de uma comunidade rural angolana entra pela primeira vez numa sala de aula, ela não chega vazia. Leva consigo uma língua, uma memória cultural, formas próprias de interpretar o mundo e conhecimentos adquiridos na família e na comunidade. No entanto, muitas vezes, a escola recebe essa criança como se ela precisasse abandonar esse universo linguístico para começar verdadeiramente a aprender.

O problema central não está simplesmente no uso da língua portuguesa como língua oficial e de escolarização, mas na ausência de mecanismos que reconheçam a diversidade linguística existente no país. A questão fundamental é saber se a escola angolana está a ensinar português às crianças ou se está, inadvertidamente, a utilizar o português como filtro para determinar quem terá sucesso e quem será.

Nas zonas rurais de Angola, muitas crianças têm como primeira língua uma língua nacional africana. Quando iniciam a escolarização, são confrontadas com uma mudança brusca: a língua da família e da comunidade raramente coincide com a língua dos manuais, dos professores e da avaliação escolar.

Esse fenómeno cria uma situação paradoxal: a criança pode possuir conhecimentos, mas não dispõe ainda plenamente do instrumento linguístico exigido pela escola para demonstrá-los. Assim, uma dificuldade de comunicação pode ser interpretada como falta de inteligência, quando, na realidade, representa uma distância entre a língua de socialização da criança e a língua institucional da escola.

Cummins (2000) demonstra que o desenvolvimento da primeira língua desempenha um papel fundamental na aquisição de uma segunda língua, defendendo que competências cognitivas e académicas desenvolvidas numa língua podem contribuir para a aprendizagem de outra. Esta perspectiva questiona modelos educativos que consideram a língua materna um obstáculo, quando ela pode constituir uma ponte para novas aprendizagens.

Nesta perspectiva, o fracasso escolar não começa necessariamente quando o aluno reprova; começa antes, no momento em que o seu repertório linguístico deixa de ser reconhecido como conhecimento válido.

Pierre Bourdieu (1991) demonstra que as línguas não possuem apenas valor comunicativo; possuem também valor social e simbólico. Algumas variedades linguísticas são legitimadas pelas instituições, enquanto outras são consideradas inferiores. No contexto escolar, essa hierarquização pode transformar a língua dominante num instrumento de selecção social.

Aplicaado à realidade angolana, este fenómeno revela uma questão profunda: quando uma criança fala uma língua nacional em casa e encontra uma escola que valoriza exclusivamente outra língua, não existe apenas uma mudança linguística; existe uma mudança no estatuto do seu próprio conhecimento.

A criança não aprende apenas uma nova língua; aprende também que a sua língua de origem ocupa uma posição secundária no espaço público. Esta percepção pode afectar a participação, a autoestima linguística e a relação com a escola.

A UNESCO (2003, 2011) tem defendido que políticas educativas multilingues podem favorecer uma aprendizagem mais inclusiva, sobretudo nos primeiros anos de escolarização. O reconhecimento da língua materna não significa rejeitar o português, mas criar condições para que o português seja aprendido como ampliação do repertório linguístico, e não como substituição da identidade linguística da criança.

A narrativa tradicional tende a perguntar: “Por que razão estas crianças têm dificuldades em aprender português?” Uma pergunta mais justa seria: “Por que razão a escola espera que todas as crianças cheguem preparadas para aprender numa língua que nem todas dominam?”

Esta mudança de perspectiva é fundamental. O desafio não está apenas em ensinar português, mas em construir uma escola capaz de reconhecer que Angola é linguisticamente diversa. Uma escola que ignora essa diversidade corre o risco de transformar uma diferença natural entre línguas numa desigualdade permanente entre estudantes.

Por isso, discutir línguas nacionais não é apenas discutir cultura ou identidade. É discutir justiça educativa. Uma criança não deve ser considerada menos capaz porque o seu primeiro contacto com o conhecimento escolar acontece através de uma língua diferente daquela que domina em casa.

O fracasso escolar nas zonas rurais de Angola não pode ser analisado apenas através das condições materiais da escola. Existe uma dimensão linguística que precisa de ocupar um lugar central no debate educativo. Quando a língua da criança é invisibilizada, a escola perde uma oportunidade de construir uma aprendizagem mais significativa e inclusiva.

Valorizar as línguas nacionais, formar professores para contextos multilingues e desenvolver políticas educativas sensíveis à realidade linguística angolana não significa enfraquecer o português. Pelo contrário, significa criar bases mais sólidas para que todas as crianças possam aprender português e outros conhecimentos sem precisar negar a sua própria história linguística.

A verdadeira pergunta talvez não seja se as crianças rurais estão preparadas para a escola. A pergunta mais urgente é: estará a escola preparada para reconhecer plenamente as crianças que recebe?

Fernando Chindele Capolo Chilumbo é estudante de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa na Universidade Agostinho Neto, com interesse em Sociolinguística, línguas nacionais e educação em Angola.

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