Pesquisa da Unifesp identifica a cela do DOI-Codi onde Vladimir Herzog foi encontrado morto

Achado científico contribui para esclarecer um dos crimes de Estado mais emblemáticos da ditadura militar brasileira
Uma pesquisa conduzida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou, com base em evidências documentais, periciais e arquitetônicas, a cela do DOI-Codi em São Paulo onde foi encenado o falso suicídio do jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob tortura em outubro de 1975. O espaço, localizado no edifício nos fundos da 36ª Delegacia à Rua Tutóia, 921, ainda preserva características estruturais que permitiram sua identificação e foi confirmado como o cenário da fotografia divulgada à época pelos órgãos de repressão para sustentar a versão oficial de suicídio.
As descobertas que levaram à hipótese do encontro da sala ocorreram a partir da conjugação dos trabalhos de arqueologia forense, coordenados por Cláudia Plens, arqueóloga, professora de Arqueologia Histórica da Unifesp; da pesquisa histórica realizada por Deborah Neves, Doutora em História e pós-doutoranda na Unifesp; e de arquitetura, conduzidos e executados pelo arquiteto Alessandro Sbampato, pesquisador da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória e Consciência (Rebrapesc).
A identificação da cela foi possível por meio da análise cruzada de documentos periciais da época, fotografias históricas, plantas arquitetônicas do edifício e evidências físicas preservadas na estrutura do prédio, incluindo elementos construtivos compatíveis com o ponto de fixação do ferrolho visível em imagens de 1975, ainda identificáveis na alvenaria da cela prospectada. A comparação entre paginação e padrão gráfico dos tacos da cela – registrada nas fotos históricas – e paginação e padrão gráfico ainda existente, encontrada na primeira fase de prospecções arqueológicas, contribuiu para a identificação da cela. A correspondência entre esses elementos permitiu reconstituir espacialmente o ambiente e confirmar o local onde a cena foi montada por agentes do regime.
Entre as ações, foi realizada a análise da bibliografia, das plantas originais de 1960, das grades de presos produzidas pelo DOI-Codi entre os anos de 1970 e 1975, dos laudos periciais de encontro do cadáver de José Ferreira de Almeida, assassinado em 08/08/1975, e de Vladimir Herzog, assassinado em 25/10/1975; e dos depoimentos de Silvaldo Leung Vieira à Folha de S.Paulo, in loco, e à Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog no ano de 2013.
Para Deborah Neves, a identificação do local tem relevância histórica e jurídica. “Localizar materialmente o espaço onde a ditadura encenou o falso suicídio de Vladimir Herzog permite demonstrar, com base em evidências científicas, a materialidade de fraudes cometidas por agentes do Estado. Trata-se de reconhecer o lugar onde se construíram mentiras oficiais que marcaram a história brasileira e que só agora, 50 anos depois, foi possível revelar, graças à preservação garantida pelo tombamento e às pesquisas históricas, arqueológicas e arquitetônicas no espaço, feitas por universidades públicas”, afirma.
Para Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, “essa descoberta é um ganho para a sociedade porque nos traz uma verdade histórica, documentada e preservada. Cada nova evidência contribui para consolidar a memória coletiva, que é um direito nosso, sobre os crimes da ditadura. E reafirma a importância da justiça, da memória e da não repetição. Mais do que um dado histórico, essa descoberta tem um valor simbólico e pedagógico sobre o passado com consequências diretas para o futuro. Ela ajuda a enfrentar o negacionismo e demonstra que, mesmo passadas décadas, o compromisso com a verdade segue revelando a certeza da impunidade de agentes do Estado violadores de direitos humanos. É também uma forma de honrar a memória de Vladimir Herzog e de todas as vítimas da ditadura, reafirmando que a verdade não pode ser falseada nem mesmo enterrada”.
A pesquisa integra as ações acadêmicas de pesquisa e extensão da Unifesp voltadas à preservação da memória e à produção de conhecimento sobre as violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura. O projeto Memorial Virtual DOI-Codi busca documentar, mapear e tornar acessíveis evidências históricas relacionadas ao funcionamento do principal centro de repressão política do país, além de fomentar o movimento para a implementação do museu no espaço físico onde funcionou o antigo DOI-Codi entre 1969 e 1983.
“A identificação científica desse espaço reafirma o compromisso da Unifesp com a verdade histórica, a memória e os direitos humanos. Trata-se de uma contribuição relevante da pesquisa acadêmica brasileira para o esclarecimento de um crime de Estado que marcou a história do país”, destaca a reitora da Unifesp, Raiane Assumpção.
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