Empréstimo consignado: as promessas enganosas por trás do crédito fácil

O aumento dos juros e o avanço do endividamento das famílias brasileiras têm transformado o crédito consignado em uma das principais alternativas buscadas por aposentados, pensionistas, servidores públicos e trabalhadores com carteira assinada. Mas, por trás da promessa de “dinheiro rápido”, “parcelas pequenas” e “aprovação sem burocracia”, especialistas alertam para uma série de práticas enganosas adotadas em negociações de empréstimos e financiamentos.

Esta é a primeira reportagem de uma série especial sobre crédito, juros e endividamento no Brasil, produzida para os portais Polo de Notícias e Oclick10.

Crédito fácil, dívida longa

O empréstimo consignado ganhou força nos últimos anos por oferecer juros menores em relação a outras modalidades de crédito. Como as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário, os bancos consideram o risco de inadimplência menor.

Na prática, porém, muitos consumidores acabam contratando operações sem compreender totalmente o impacto financeiro da dívida no orçamento.

Entre as principais reclamações registradas em órgãos de defesa do consumidor estão:

omissão sobre o valor total pago ao final do contrato;
oferta de refinanciamentos sucessivos;
contratação sem autorização clara;
promessa de “troco” ou “dinheiro extra”;
venda casada de seguros e cartões;
pressão psicológica para fechamento rápido do contrato.

Especialistas apontam que parte das abordagens comerciais explora justamente momentos de vulnerabilidade financeira.

A mentira da “parcela que cabe no bolso”

Uma das estratégias mais comuns nas negociações é focar apenas no valor da parcela mensal.

Em vez de explicar o custo efetivo total da operação, atendentes e correspondentes bancários costumam destacar frases como:

“Vai descontar só R$ 120 por mês”;
“O senhor quase não vai sentir”;
“É melhor pagar parcelado do que ficar apertado agora”.

O problema, segundo economistas, é que contratos aparentemente pequenos podem durar anos e comprometer grande parte da renda do consumidor.

Em muitos casos, o cliente renegocia a dívida antes da quitação total e entra em um ciclo permanente de refinanciamento.

Refinanciamento infinito

Outra prática comum envolve o chamado “troco”. O consumidor é informado de que pode renovar o empréstimo e receber um novo valor em conta.

O que muitas vezes não é explicado com clareza é que a dívida antiga é incorporada a um novo contrato, normalmente com prazo maior e mais juros acumulados.

Na aparência, o cliente recebe dinheiro novo. Na realidade, prolonga o endividamento.

A situação se torna ainda mais delicada entre aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), frequentemente alvo de assédio telefônico e ofertas agressivas.

Ligações insistentes e assédio comercial

Consumidores relatam receber dezenas de ligações por semana oferecendo crédito consignado.

Muitos atendentes utilizam frases como:

“Seu empréstimo já está aprovado”;
“Existe um valor liberado em seu nome”;
“O banco separou um limite especial para o senhor”.

Especialistas em direito do consumidor alertam que essas abordagens podem induzir o cidadão a acreditar que existe uma obrigação, benefício automático ou oportunidade urgente, criando pressão psicológica para contratação.

Juros altos agravam cenário

O problema ocorre em um momento de juros elevados no Brasil. Com taxas altas no crédito pessoal, cheque especial e cartão de crédito, muitas famílias recorrem ao consignado tentando reorganizar dívidas anteriores.

Segundo analistas financeiros, isso pode gerar uma “troca de dívida”, sem resolver a origem do problema econômico.

Além disso, há casos em que consumidores utilizam um empréstimo para quitar outro, entrando em efeito cascata.

Falta de educação financeira amplia riscos

Especialistas defendem que a baixa educação financeira no país facilita a disseminação de contratos pouco transparentes.

Muitos consumidores não analisam:

o CET (Custo Efetivo Total);
o prazo final da dívida;
o valor total pago;
as taxas embutidas;
os seguros agregados ao contrato.

Outro problema recorrente é a dificuldade de leitura e compreensão dos contratos digitais, frequentemente assinados por aplicativos ou biometria facial.

O que o consumidor deve observar

Antes de contratar um empréstimo consignado, especialistas recomendam:

comparar taxas entre diferentes bancos;
exigir o valor total da dívida;
desconfiar de pressão para contratação imediata;
evitar refinanciamentos frequentes;
nunca compartilhar senhas ou códigos;
verificar se há seguros embutidos;
confirmar se o desconto mensal cabe no orçamento real.

Também é importante registrar reclamações em órgãos de defesa do consumidor e denunciar contratos não autorizados.

Série especial

A série especial dos portais Polo de Notícias e Oclick10 seguirá investigando práticas abusivas no mercado de crédito brasileiro.

As próximas reportagens abordarão:

financiamento de veículos;
crédito pessoal digital;
armadilhas do cartão de crédito;
juros do rotativo;
superendividamento;
golpes financeiros envolvendo empréstimos online;
impacto das apostas e fintechs no endividamento das famílias.
Sugestões de títulos (até 70 caracteres)
As mentiras por trás do empréstimo consignado
Crédito fácil esconde armadilhas para consumidores
Consignado: promessas enganosas aumentam dívidas
O lado oculto dos empréstimos consignados no Brasil
Refinanciamento e juros altos prendem consumidores

Com informações de assessoria

Wagner Sales – editor de conteúdo

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